Wolverine – Imortal | Review

Sandy já previu: imortal não morre no final.

Wolverine

The Wolverine
EUA, 2013 – 126 min
Ação

Direção:
James Mangold
Roteiro:
Scott Frank, Mark Bomback
Elenco:
Hugh Jackman, Tao Okamoto, Rila Fukushima, Hiroyuki Sanada, Svetlana Khodchenkova, Brian Tee, Haruhiko Yamanouchi, Famke Janssen

A trilogia X-Men foi muito importante para o cinema baseado em quadrinhos. Foi X-Men, em 2000, que deu aquele empurrãozinho para que os estúdios voltassem a apostar em longas-metragens baseados em HQs. Batman & Robin, em 1997, fez com que os produtores ressentissem, mas a obra de Bryan Singer conquistou público e crítica. Em 2002, veio Homem-Aranha e então o gênero se estabeleceu. X-Men 2 e O Confronto Final foram sucesso de bilheteria e a marca se estabilizou.

Por algum motivo maldito, a FOX planejou fazer filmes dos mutantes separados, como foi X-Men Origens: Wolverine. Deveria ter saído um de Magneto, Tempestade e até de Deadpool. Apesar de a arrecadação ter sido alta, a qualidade cinematográfica da película solo de Wolverine estava muito abaixo do que a trilogia havia estabelecido. A FOX desistiu dessa história de origens e deu aquele reboot esperto – prática mais do que comum em Hollywood – e acertou em cheio com X-Men: Primeira Classe. Inevitavelmente, com a chegada de Wolverine – Imortal, a desconfiança era generalizada. Não por causa do ótimo Primeira Classe, mas devido ao filme solo de Logan. Ou seja, tudo poderia dar errado. Felizmente, não deu.

Wolverine – Imortal me surpreendeu de diversas maneiras. Mesmo se fosse ruim, já seria melhor do que o Origens. Mas as expectativas são superadas. Este filme praticamente ignora o que aconteceu em Origens e é uma continuação direta de X-Men: O Confronto Final. Gosto da ideia de assumirem essa conexão e não fazer obras desgarradas, sem ligação nenhuma. Aprecio esta decisão porque ela é decisiva na construção da narrativa, que traz Logan (Hugh Jackman) atormentado pela morte de Jean Grey (Famke Janssen). Ele carrega o peso da morte nas costas, além de estar com o coração partido por perder o amor de sua vida. Wolverine se esconde e tenta deixar o animal que o habita preso.

Logan é achado por Yukio (Rila Fukushima), a mando de Yashida (Haruhiko Yamanouchi). O velhinho quer agradecer ao mutante por tê-lo salvado da explosão nuclear, durante a Segunda Guerra Mundial, em Nagazaki. Diz ele que entende a dor do protagonista e quer proporcionar a ele algo que deseja: a mortalidade. Ou melhor, a oportunidade de viver e morrer como uma pessoa normal, sem o poder da cura.

James Mangold (Johnny & June, Garota, Interrompida) é um diretor eclético e que gosta de variar suas escolhas cinematográficas. Wolverine – Imortal é sua primeira vez com um longa-metragem de super-heróis, só que ele tenta ignorar este fato. Em X-Men Origens: Wolverine, uma das principais problemáticas era a quantidade de mutantes que apareciam na tela, mal introduzidos, mal desenvolvidos e que não ofereciam nada de positivo. O que Mangold faz é o processo inverso. Os personagens são poucos, mas bem desenvolvidos (salvo uma ou outra exceção) e pouquíssimos são mutantes. Mangold adiciona humanidade e fragilidade ao papel de Jackman. Nunca ele este tão vulnerável, tanto emocional quanto fisicamente – e Jackman também é responsável por isso, em mais uma ótima atuação na pele do personagem. O diretor prefere se focar nisso do que em cenas de ação exageradas e sem propósito.

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“Queria um filme baseado num personagem realista que não tivesse a ver com um vilão destruindo uma cidade, um estádio de futebol, um país ou o planeta. A energia, o motor e o drama do filme vêm da jornada do personagem”, disse Mangold, em entrevista para a Revista Preview, edição de Julho deste ano. A intenção dele não era fazer um filme explosivo, mas sim introspectivo, trabalhado em cima do personagem. E ele consegue. É fácil enxergar que o protagonista está sofrendo. A presença constante de Jean em seus sonhos ilustram bem os sentimentos do personagem, seja a dor, o arrependimento, a solidão, a saudade, e por aí vai. A relação de Wolverine com Mariko (Tao Okamoto), que é uma das peças fundamentais da HQ na qual o longa se baseia, também funciona nas telas. Logan começa a se reencontrar ao conviver com ela. O romance acontece de maneira natural e serve para ajudar a curar determinadas feridas dele, o que é bem irônico uma vez que ele está mais vulnerável do que nunca.

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Dá para associar essa fragilidade de Logan como um fator que o aproxima do espectador. Tirando o fato de Wolverine ter suas garras de adamantium, o novo filme do mutante é uma película sobre uma espécie de vingador solitário, quase um cowboy. Ou um simples ronin, um samurai sem mestre, como é dito na tela. As cenas de ação são ótimas, mas não são surreais. Ok, um cara com garras é um pouco surreal, mas perto do que acontece nos outros X-Men, o que o protagonista faz aqui é o mais próximo da realidade possível. Posso até ousar e dizer que esse é um Wolverine que Christopher Nolan dirigiria. A ação é espetacular, mas nunca sem deixar de lado o aspecto humano.

Para um filme funcionar, precisamos nos importar com o personagem, e Mangold reforça isso na entrevista na já citada edição da Revista Preview. “Os filmes hoje em dia com frequência tornam-se uma corrida de armas ou um espetáculo que pode deixar o espectador entorpecido. Queria ter o espetáculo, mas também que o espectador se importasse”, disse o diretor. Esta fala poderia ser muito bem ser usada contra O Homem de Aço, longa que falhou ao criar um elo comigo e tantos outros por se focar na ação, nas explosões e efeitos especiais, e se esqueceu de humanizar e aprofundar seus personagens. Mangold acerta em diversos aspectos, e faço um adendo à ambientação japonesa, perfeita. Um animal furioso e ferido no meio de um lugar cheio de regras, costumes, sutilezas e que coloca a honra acima de qualquer coisa. Esta é uma das melhores coisas trabalhadas na HQ, Eu, Wolverine, de Frank Miller e Chris Claremont, e que Mangold traz para a tela, mesmo sendo com menos intensidade. Gosto bastante também da trilha incidental, que traz o toque oriental em suas composições, especialmente nas brigas de Logan.

O filme dita o seu próprio ritmo, não se afobando ou exagerando na maior parte do tempo. Faço este adendo porque no ápice do longa há uma leve escorregada, com vilões que se tornam um tanto cartunescos e fazem questão de contar seus planos mirabolantes. Afinal, matar não é o suficiente. Precisa se justificar. Mas isso é um problema não só de Wolverine – Imortal. De qualquer forma, essa resolução um pouco duvidosa não compromete o todo. Wolverine volta a ter credibilidade, perdida em 2009, e nós, espectadores, temos um dos melhores (ou o melhor?) filme de super-herói do ano. É totalmente fiel à HQ? Não. Principalmente o Samurai de Prata. Mas não vou ao cinema esperando ver tudo, ipsis litteris, que havia na obra original. Não seja um xiita chato e aproveite um dos poucos blockbusters de 2013 que não é ruim.

É importante lembrar que existe uma cena pós-créditos que faz a ligação com X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, filme que reúne as duas gerações dos mutantes no cinema no ano que vem. E ela é excitante. Não deixem de assistir.

4 STARS

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