Mad Men – Sexta Temporada | Review

Mad Men saeson 6

AVISO! Este texto contém spoilers.

O Sindicato dos Roteiristas de Hollywood (Writers Guild of America) elegeu no começo do mês os melhores programas televisivos de ficção de todos os tempos. A única série que iniciou nos últimos 10 anos a figurar no top 10 da lista é Mad Men, criada por Matthew Weiner, um dos roteiristas de The Sopranos (Família Soprano, aqui no Brasil), considerada a mais importante da história. Existem vários motivos para Mad Men ser tão relevante para a história da TV. A nova temporada, que é exibida na HBO Brasil com apenas duas semanas de atraso em relação à AMC, chegou ao fim nos EUA no último domingo. Sua antecessora teve um leve declínio em comparação com a quarta, mas neste sexto ano de exibição, Mad Men prova novamente porque é uma das melhores coisas que a televisão norte-americana já produziu.

Esta temporada aproveitou para aprofundar ainda mais seus personagens, como é costumeiro da série, que se foca neles acima de qualquer contexto histórico, apesar deste existir e ser devidamente bem trabalhado. O caminho trilhado aqui leva todos para a perdição. A sensação, desde o início do sexto ano, é de que os personagens estão sem rumo e que a qualquer momento podem se perder de vez, em um caminho sem volta. É claro que isso fica bem mais evidente na figura de Don Drapper (Jon Hamm).

Don bem que tentou se tornar um marido exemplar, um pai melhor, um ser humano mais decente na quinta temporada. Mas suas tentativas foram por água abaixo como esboçado pela última cena do ano passado. É da natureza de Don ser inescrupuloso. A sexta temporada é a destruição completa de Draper.

O personagem, desde o episódio um, vai se distanciando de seu casamento, de seu trabalho, de sua família. A figura do conquistador, regrado apenas pela cobiça do corpo de outra mulher, retorna. A vítima da vez é Sylvia (Linda Cardellini), vizinha do prédio de Don e Megan (Jessica Paré). A mulher, por sinal, também é casada. Sylvia mostra que caráter também não é o seu forte. Assim como o casamento de Don parece cada vez mais diluído, o de Sylvia não está no ápice. Portanto, ela se deixa levar facilmente pelo publicitário. A relação entre eles entra em um nível abominável. Em um dos melhores episódios da temporada, “Man with a Plan”, Draper faz de Sylvia sua refém e toma atitudes controversas, até mesmo doentias, para afirmar sua dominação. A necessidade, talvez, venha devido à fusão entre as duas firmas. Com a realização desta, o poder de Don fica em cheque em seu trabalho, por isso ele necessita, de alguma forma, mostrar que ainda está no poder – e que as pessoas dependem dele.

A fusão, aliás, vem de forma inusitada – e é o que dá o frescor que a série precisava para continuar em alto nível. A agência em que Peggy (Elisabeth Moss) trabalha e que é gerenciada por Ted (Kevin Rahm) acaba sendo obrigada a unir forças com a de Don para conseguir ganhar a conta da Chevrolet. O fato é ótimo já que obriga que Peggy volte a interagir com Don (e ganha mais espaço na série novamente) e faz com que o protagonista tenha que se virar no meio de uma nova situação em que ele precisa se adequar. Mudanças não são o forte do personagem. Já disse Mick Jagger em uma canção, “old habits die hard”. A frase se encaixa perfeitamente no papel de Jon Hamm. Existe certa resistência à mudança, o que é um tanto contraditório vindo de um cidadão que é publicitário e procura inovar em suas campanhas.

A inclusão de Ted na trama é muito bem vinda. Inicialmente, o chefe de Peggy serve como contraste de Don. A calma, a paciência, o bom convívio com os outros empregados e o sorriso estampado no rosto não combinam em nada com o carrancudo, fechado e anti-opiniões Draper. Quando Ted tenta se igualar enchendo a cara, claramente não acompanhando o ritmo de Don. Depois disso, a situação começa a mudar. Ficar ao redor de Draper parece ser tóxico. Coincidência ou não, Ted começa a se apaixonar por Peggy, o que não é bom pelos seguintes motivos: 1) ela é uma colega de trabalho; e 2) ele é casado e tem dois filhos. Aos poucos, a série vai mostrando que Ted tem potencial para ser um novo Don Draper. A família não é mais a prioridade para ele. O trabalho consome sua vida, dia e noite. E ainda por cima há um romance no escritório. Pra ficar completa a igualdade, só faltou uma boa dose de whisky. Ted caminha para a sua própria perdição, mas até que ponto ele consegue chegar? Será que ele quer ser igual a Draper? No season finale, “In Care Of”, descobrimos a resposta.

Todos os personagens se mostram perdidos dentro e, principalmente, fora da agência. Apesar de ser uma das sócias da agência, Joan (Christina Hendricks) não se sente tratada como tal. Peggy, por exemplo, mesmo não sendo uma das associadas, conquistou respeito dos colegas trabalhando duro, subindo na vida através de seu trabalho e competência, diferente de Joan. Um dos episódios da temporada explora esta diferença entre as duas e a frustrada tentativa da ruiva de impor respeito e demonstrar que pode conquistar clientes sem dar seu corpo em troca. Além disso, ela vive o drama de ser uma mãe solteira. Na questão solteirice, Pete (Vincent Kartheiser) também está incluído na lista já que seu casamento com Trudy (Alison Brie) chega ao fim depois de o publicitário ter desejado uma vida mais livre. Só que a liberdade custa caro. Dentro da agência, a cada dia que passa, Pete percebe que vai perdendo sua relevância e ainda por cima precisa cuidar da mãe, possivelmente com Alzheimer. Roger (John Slattery) também está presente na lista de pessoas perdidas. Mais do que nunca, ele abraça sua falta de utilidade, viajando pra lá e pra cá, tentando ajeitar as coisas com os clientes quando pode utilizar de sua boa lábia, arrisca uma reaproximação com a família depois que sua mãe falece e busca dedicar-se um pouco mais para o seu filho com Joan.

Enquanto alguns parecem deslocados, à procura de algo que dê sentido às suas vidas, eis que surge um personagem que, pouco a pouco, vai se tornando uma espécie de Don Draper. Bob Benson (James Wolk) é um personagem misterioso e instigante. Lá no começo da temporada ele surge do nada. Alguns dizem que é do andar de cima, ou de baixo, ou de qualquer outro lugar, menos da agência. Tudo o que ele quer é ser útil de alguma forma. Quando menos se percebe, ele está escalado para participar de uma conta, sugere a ajuda de um enfermeiro conhecido para cuidar da mãe de Pete, presta serviços para Joan e por aí vai. Ele tenta agradar de todas as formas possíveis. Mas afinal de contas quem é Bob Benson? A temporada não esclarece, mas o mistério em torno dele é um dos triunfos da temporada. Pete é aquele que fica com um pé atrás e investiga o passado do sujeito, descobrindo que ele é uma farsa. A escalada ao sucesso, mas com o pretérito em segredo. Pete já passou por isso antes, lá no começo da série, com Draper. Benson deixa claro, no entanto, que sua personalidade amigável é apenas uma máscara que utiliza para chegar aonde deseja. Podemos esperar muito do personagem para a próxima temporada.

Mad Men consegue explorar os coadjuvantes de maneira formidável. Ela sempre obteve sucesso em desmembrar e contar mais sobre eles, e mantém a qualidade neste quesito. Novamente, ela traz uma ambientação fiel ao contexto histórico da época, aqui situado no final dos anos 60. O fato do histórico mesclado com a trama aqui é a morte de Martin Luther King. Apesar destas conquistas, Mad Men não tira o foco de seu protagonista maior, Don Draper.

Como dito lá no início do texto, Draper está cada vez mais perdido. Há momentos específicos que mostram a fragilidade dele e seu descontrole. Uma vez ou outra, em episódios aleatórios, somos jogados para a infância de Don e descobrimos mais sobre sua infância sofrida como órfão, vivendo em um bordel. A maneira como ele é criado e tratado evidentemente reflete o seu futuro, especialmente no seu tratamento com as mulheres e seus filhos. O discurso de Don durante a apresentação da campanha para a Hershey’s, na season finale, exterioriza seus sentimentos e sua sórdida infância, como o amor lhe faltou e as lembranças felizes são raras, se resumindo apenas em um pedaço de uma barra de chocolate.

Os traumas da infância refletem em Don, uma pessoa que não aprendeu a amar. No diálogo com Megan, no episódio “The Flood”, ele conta como se sente em relação aos filhos. “Quando o bebê surge, […] você não sente nada. Principalmente quando se teve uma infância difícil. Você quer amá-los, mas não consegue”. Este é só um trecho, mas as palavras de Don são ainda mais difíceis de serem digeridas. Com elas, no entanto, é possível compreender as ações de Don. Não justificam e nem fazem com que o espectador concorde com as escolhas dele, mas é possível entender os traumas do personagem. Em outro momento na temporada, ele e Betty (January Jones) estão trocando os papéis de outrora. Ao invés de ser a traída, agora é a amante. E ao perguntar de Megan, Betty diz que “ela não sabe que amar você é a pior maneira de tê-lo”.  Esta é a frase mais marcante de toda a série, além de ser a mais verdadeira e condizente com a personalidade de Draper.

A temporada inteira é um estudo de caso sobre o personagem. Este vai se destruindo cada vez mais e acaba chegando ao fim do poço quando até mesmo sua filha, Sally (Kiernan Shipka), a única que ainda admirava-o de alguma forma, o enxerga como um verdadeiro monstro. Don cria uma mentira atrás da outra, e mesmo sendo pego no flagra por sua filha, ele não é capaz de admitir e dizer-lhe a verdade. Ele se isola neste mundo de mentiras e omissões, perdendo tudo o que conquistou ao longo dos anos, se sentindo extremamente frágil, sentimento ilustrado pela posição fetal que assume no início e desfecho do episódio “The Quality of Mercy”.

Ver Jon Hamm atuando é uma experiência única. Ele entrega tudo o que o papel requer. São várias nuances e Hamm simplesmente destrói como Don Draper. Nunca lhe foi exigido tanto e ele reafirma o seu lugar como um dos melhores atores da atualidade na televisão. Se finalmente vier um prêmio Emmy para ele, não me surpreenderia.

Mad Men culmina em um ápice que não alcançava desde a brilhante quarta temporada. Matthew Weiner demonstra estar consciente do que está fazendo e sabe aonde quer chegar com a série. Os episódios variam em estilo, a trama é perfeitamente delineada, enquanto a qualidade técnica permanece soberba. Independente do que acontecer nos próximos (e últimos) episódios, Mad Men já conquistou seu espaço como uma das melhores séries de todos os tempos – e com todos os méritos possíveis.

Mad Men: Season Six
EUA, 2013 – 13 episódios
Drama

Criado por:
Matthew Weiner
Elenco:
Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kiernan Shipka, Jessica Paré, Kevin Rahm, Christopher Stanley, Jay R. Ferguson, Ben Feldman, Mason Vale Cotton, Robert Morse, John Slattery, James Wolk, Alison Brie, Mark Moses, Linda Cardellini

Lista de episódios:
6×01/02: The Doorway
6×03: The Collaborators
6×04: To Have and to Hold
6×05: The Flood
6×06: For Immediate Release
6×07: Man with a Plan
6×08: The Crash
6×09: The Better Half
6×10: The Tail of Two Cities
6×11: Favors
6×12: The Quality of Mercy
6×13: In Care Of

5 STARS

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