O Som Ao Redor | Review

O Som Ao Redor cartaz

O Som Ao Redor
Brasil, 2012 – 131 min
Drama

Direção:
Kleber Mendonça Filho
Roteiro:
Kleber Mendonça Filho
Elenco:
Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Gustavo Jahn, W.J. Solha, Irma Brown, Lula Terra, Yuri Holanda, Sebastião Formiga

A filmografia brasileira é permeada pelos seguintes temas: a pobreza juntamente com as favelas, retratos de figuras notórias da nossa história e comédias globais. Não necessariamente estas três facetas são de todo mal. Mas falta um pouco mais de identidade no nosso cinema. No ano passado, quantos filmes diferentes disso nós conferimos na telona?  Acredito que a resposta será a seguinte: nenhum.

A chegada de O Som Ao Redor causou furor na imprensa internacional – bem mais do que no próprio país de origem. Lá fora, o longa-metragem conseguiu distribuidoras em diversos países, enquanto no Brasil o próprio diretor, Kleber Mendonça Filho, e a produção do filme foram os responsáveis por fazer a distribuição do longa, infelizmente de forma bem restrita. Enquanto nos Estados Unidos o filme já foi lançado em blu-ray, muitos brasileiros nem tiveram a oportunidade de assisti-lo no cinema. O filme, agora, está disponível para compra no iTunes Brasil.

O Som Ao Redor, no entanto, fez bastante barulho. A imprensa mundial o encheu de elogios – e a brasileira também. A película se fez presente na lista dos melhores filmes de 2012 em diversos sites e periódicos. É uma honra para o cinema nacional. Essa glamorização tem embasamento, pois o longa é diferente dos três temas citados no início do texto. O diretor pernambucano mostra uma nova vertente do cinema nacional, dando voz e imagem aos brasileiros que, por algum motivo, não são mostrados no cinema: a classe média. Não é só de pobreza e riqueza extremas que vive o nosso país e O Som Ao Redor exibe com fidelidade essa fatia da população que preenche o território nacional.

O longa introduz ao espectador um cenário vivenciado por muitos brasileiros. Um bairro começa a passar por alguns problemas relacionados à segurança. Numa manhã qualquer, retiram o vidro inteiro do carro de uma mulher só para roubar o rádio que havia nele. Visando proteger a vizinhança, eis que surge um grupo para vigiar os arredores, sendo pagos por quem quiser naquele bairro.

Não tome O Som Ao Redor como um filme comum. Seu ritmo é desacelerado, quase que pacato. Mas apenas na superfície. É exatamente como a vida. Kleber Mendonça Filho aposta em captar os momentos costumeiros dos cidadãos. Um momento de preguiça na cama; filhos brincando com a mãe no sofá; a empregada se envolvendo com o segurança da rua. Coisas que acontecem no bairro mais próximo da sua morada. Com um olhar aguçado, a câmera do diretor registra o íntimo daquelas pessoas e tudo sem pudor.

O silêncio. Os ruídos. O latido do cão. O carro que passa pela rua.  O estremecer da máquina de lavar. O som da madrugada ou do dia. Registros deste mundo urbano. O Som Ao Redor explora tudo o que há ao redor e vai revelando as facetas de seus personagens e do lugar onde vivem.  É interessante observar que o longa-metragem é um estudo de caso sobre a classe média. É a ambientação desta classe que permanece na insatisfação contínua, mas que pouco faz para mudá-la – conseguindo um pouco de alegria nas coisas mais triviais possíveis. Preferível ficar neste status quo ao invés de fato lutar pela mudança. Parte da classe é anestesiada. Na película, as grandes reclamações são em relação ao porteiro que foi pego dormindo durante o turno noturno e a edição da Revista Veja de uma moradora do prédio que veio fora do plástico. Cara de pau somos nós, que tentamos pedir desconto no aluguel do imóvel porque houve um suicídio no prédio. Cômico e trágico. Estes são nossos verdadeiros problemas.

Filho também explora a paranoia de vivermos cada dia mais com medo e reclusos dentro de nossos lares. A falta da liberdade plena que nos é de direito, mas que nos é tirada dia após dia. Mas isso não impede que um senhor idoso saia no meio da madrugada para ir até a praia tomar um banho de mar. Ele ainda luta para manter sua vida do jeito que um dia fora. Entramos então no ponto da nostalgia. João (Gustavo Jahn) acompanha Sofia (Irma Brown) até o local ocupado pela casa em que ela cresceu, mas que está prestes a ser derrubada. Uma volta ao passado. Nas palavras do crítico de cinema Pablo Villaça, “um museu particular”. É o passado que não volta mais. Mas isso não a impede de deleitar-se com as memórias daquele lugar que irá virar pó em breve. Apego ao que passou e hoje não é mais o mesmo. Saudosismos. Seria o cinema antigo e abandonado, tomado pelos maus tratos do tempo, uma metáfora sobre e declínio desta arte (e dos famosos cinemas de rua, substituídos pelas grandes redes exibidoras dentro dos shoppings) ou o declínio da própria sociedade? É tudo isso e ainda mais um pouco.

A película também explora diversos ângulos, e o meu preferido é o de Bia (Maeve Jinkings), uma dona de casa que não trabalha e passa seus dias dentro do apartamento, imergida na escuridão que a consome. No meio da solidão, ela tenta encontrar maneiras de sair da monotonia. Seja fumando um baseado, se masturbando com a ajuda da tremedeira da máquina de lavar ou tentando maltratar o cachorro que tira seu sono latindo sem parar.

É interessante como Filho consegue passar por diversos gêneros ao longo da projeção. Tudo de maneira sutil, mas ele transita entre a comédia, o drama, o thriller e até o horror. As cenas da cachoeira de sangue e da invasão na casa de Bia são aleatórias, inesperadas e tensas. Elas causam o efeito esperado e ajudam a compor a narrativa de forma positiva.

A resolução final de O Som Ao Redor pode não ser tão gratificante quanto o restante, mas é uma obra ímpar no mar de mesmice do cinema nacional. É algo destoante e que, ao lado de A Febre do Rato, mostra a força do cinema pernambucano e que nossa filmografia pode ter dias melhores daqui pra frente.

4 STARS

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