Minha Vida Agora | Review

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How I Live Now, Estados Unidos (2004)
Lançamento no Brasil: 2012
Autora: Meg Roseff
Editora: Galera
Ficção

por Leonardo Costa

Uma garota nova-iorquina, de 15 anos, desembarca na Inglaterra para passar uma temporada com a tia e quatro excêntricos primos totalmente desconhecidos. Na imensa casa de campo, longe da agitação de Manhattan e dos conflitos com a nova madrasta, Daisy descobrirá o amor, o desejo, a liberdade de um cotidiano sem adultos e o valor da amizade em tempos de guerra.

Uma das minhas grandes surpresas literárias de 2012 foi Minha vida agora, a obra de estreia da americana Meg Roseff, lançada no Brasil em 2012 pela Galera Record.

Poucos autores conseguem retratar a infância e a inocência de forma tão sincera e palpável e Meg Roseff não só o faz como também insere todas as características dessa época em uma realidade de guerra que pega os personagens e o leitor totalmente despreparados. Por trás da delicada capa do livro de apenas 175 páginas, encontramos crianças vivendo situações extremas em meio a conflitos e bombardeios enquanto descobrem o sentido do amor, companheirismo, o valor das promessas e, acima de tudo, da amizade.

Quando Daisy desembarca na Inglaterra, se depara com novos costumes, novas pessoas que até então conhecia apenas por fotos, mas que fazem parte de sua família, e uma vida totalmente diferente no campo. Longe de celulares, computadores e de sua vida virtual, a garota aos poucos começa a se acostumar com seus primos Isaac, Osbert, Edmond e a pequena Piper, por quem desenvolve um carinho especial.

A vida no campo é belamente descrita pela autora que consegue, com um vocabulário simples e direto, nos fazer relaxar completamente e esquecer de nosso próprio dia a dia conturbado e tecnológico. Quando lemos sobre os rios, os campos e a vida na fazenda, facilmente nossa imaginação nos transporta para os cenários em questão e isso foi uma das coisas que mais me agradaram na obra.

Nesse ambiente até então hostil para Daisy, ela encontra na pequena Piper, uma companhia fiel e extremamente sensível que a faz começar a entender o significado do amor fraternal e como isso pode mudar sua perspectiva de vida e visão de mundo.

O tempo passa e a vida na Inglaterra se torna confortável e cheia de boas surpresas e quando tudo está bem, Daisy descobre um novo sentimento que começa a surgir de sua convivência com Edmond, um de seus primos e, nos seus quinze anos de idade, Daisy se permite sonhar e, assim, se apaixonar pelo garoto. O sentimento é recíproco e ambos passam a viver sem preocupações em seu mundo de sonhos e desejos compartilhados, onde tudo é estável e seguro, e o que precisam está ao alcance de suas mãos.

Até que chega a guerra e tudo começa a delicadamente ser desconstruído.

Primeiramente, as crianças vêem sua mãe, tia de Daisy, tendo que se distanciar e se encontram sozinhas com a casa de campo que parece facilmente administrável sem as regras e a supervisão de um adulto. Porém, tudo começa a mudar quando os soldados das forças armadas inglesas chegam para levar os garotos aos acampamentos para ajudar nos conflitos. Além disso, eles decidem que as meninas devem ir para abrigos ou lares de outras famílias, separando Daisy de Edmond e dos outros que são levados enquanto ela se vê sozinha com a pequena Piper.

Sem provisões e preocupadas com o que pode acontecer com sua família, as meninas partem a procura de Edmond, e de lugares seguros onde possam encontrar comida e abrigo e sobreviver em meio a toda a destruição que as cerca.

O contraste entre a beleza da vida no campo e os horrores da guerra fica então evidente nas situações em que as meninas se encontram, nos diálogos carregados de emoção e nas perdas que estas passam a sofrer durante sua trajetória.

Redenção, dor, amor e superação.

A autora consegue nos apresentar com uma veracidade quase cruel em certas partes, situações e eventos que provavelmente nunca nos passaram pela cabeça quando pensamos em como deve ser viver em tempos de guerra. É como se descobríssemos pelos olhos de Daisy um mundo novo e irreal. Um mundo em que corremos o risco de acordar todos os dias.

No seu romance de estréia, Meg Rosoff mostra que o medo e a violência podem deixar marcas profundas, que talvez nunca sejam apagadas e que os mais nobres atos de gentileza, amor e coragem podem mudar o destino de qualquer um, nos períodos mais difíceis de sua vida.

Meg utiliza nesta obra um método singular de escrever: sem o uso de travessões ou aspas pra diferenciar as narrações dos diálogos, um jeito de aproximar o leitor das situações vividas por Daisy. É como se estivéssemos ouvindo o que ela está dizendo cara a cara, e não lendo nas páginas de um livro. Confesso que essa “estratégia” me deixou confuso durante a leitura em alguns momentos e no início achei que era algum erro de impressão da Galera Record.

Minha vida agora recebeu o Guardian Award, o Michel L. Printz Award da Young Adult Library Services e o Branford Boase Award e será adaptado para o cinema. O filme, em fase de pré-produção, será dirigido por Kevin Macdonald, diretor de O Último Rei da Escócia.

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