Django Livre | Review

Django Unchained

Django Unchained
EUA, 2012 – 165 min
Faroeste

Direção:
Quentin Tarantino
Roteiro:
Quentin Tarantino
Elenco:
Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Remar, Michael Parks, Don Johnson

Indicado à cinco prêmios no Oscar e vencedor de dois troféus no Globo de Ouro, Django Livre estreou nos cinemas brasileiros com um brilho que nunca vimos em nossas terras em um filme de Quentin Tarantino. O diretor começou a fazer longas-metragens quando eu só tinha dois anos. E, desde que eu tenho lembrança, nunca um trabalho do diretor chegou com tanta força, prestígio e em grande escala no Brasil. Kill Bill, por exemplo, teve pouquíssimas cópias exibidas e não tive a oportunidade de assistir no cinema. O único que tive a chance foi o excepcional Bastardos Inglórios. Mas desta vez, a nova obra de Tarantino chega estrondosamente, e até mesmo em cópias dubladas.

Tarantino não parece estar mais acessível, mais pop do que antes. Seu cinema é um pouco restrito. Quem não gosta de ver matança no cinema, por exemplo, certamente não é simpatizante dele. Mas, felizmente, suas obras parecem ficar cada vez mais atraentes ao grande público. E quando algo bom ganha notoriedade do público, é algo para se comemorar. Django Livre não é diferente do que o diretor vinha fazendo nos últimos 20 anos. Ele parece um pouco mais maduro, mas não menos enlouquecido e pop.

Django Livre tem todos os ingredientes que Tarantino preza. A trilha sonora do longa dispensa, na maior parte do tempo, composições incidentais. Ele se foca em colocar canções para dar vida às cenas, mas não de maneira costumeira. A película é um western spaghetti e mesmo assim ouvimos rappers e cantores do R&B atual norte-americano. Nem sempre cai bem, mas Tarantino tem êxito na maior parte do tempo. É uma particularidade sua. Além das canções feitas para o longa, ele utiliza outras faixas pertencentes à outros filmes do gênero faroeste, incluindo Ennio Morricone, presente também na trilha de Kill Bill.

A violência é pauta. Como é de praxe nos filmes do diretor, as pessoas possuem uns 100 litros a mais de sangue no corpo. Tarantino utiliza o exagero no mesmo nível em que brinca com a ironia. Um tiro em uma pessoa não faz com que ela sangre. Não. As tripas voam, o sangue jorra como se uma bombona de água tivesse sido acertada, mas ao invés dela, encontramos o líquido vermelho. O mesmo tiro pode fazer a pessoa ser arremessada há vários metros de distância. É quase um fenômeno paranormal. É a cara de Tarantino.

Explícito e sem um pingo de vergonha, Tarantino utiliza a violência a seu favor. Esta característica de suas obras foi colocada em discussão pela temática do longa, que trata sobre a escravidão. Spike Lee (diretor de O Plano Perfeito) disse que não assistiria ao filme porque escravidão não é tema para um western spaghetti. Então como a maioria das pessoas não tem o que fazer com suas vidas, começaram as críticas sobre a película, sobre Tarantino e como a violência em seus trabalhos refletem nas pessoas. Bobagem. Django Livre é um dos mais contidos dentre todos os feitos de Tarantino.

Em relação à escravidão, quem apostava em negros apanhando na violência costumeira do diretor, se enganou. Tarantino mede os níveis e não desrespeita a população negra. Quando vemos um escravo sendo mal tratado, seja por chibatadas, com o órgão genital prestes a ser cortado ou devorado por cachorros, a direção faz questão de tratar as cenas de forma verossímil, exibindo o horror da escravidão. Não vemos sangue jorrando nestas cenas. Não há exageros. São retratos fieis de uma época que os americanos não gostam de lembrar. Tarantino não pesa a mão e apenas exibe as atrocidades que os escravos passavam nas mãos dos brancos. E se o filme fosse um estimulador de ódio à alguma cor, certamente esta seria a branca.

Mesmo com um tema pesado, Django Livre contém o humor negro e a ironia característica da filmografia de Tarantino. Uma das cenas em questão, a do Ku Klux Klan, é demasiadamente racista, mas o que é feito com ela é tão absurdo quanto hilário. O sarcasmo vem naturalmente, nos momentos em que parece não haver espaço para ele, como no último diálogo entre Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

Quentin Tarantino é mestre na arte do diálogo. Não existe outra pessoa em Hollywood – e talvez até mesmo no cinema hoje – que consiga criar diálogos tão ricos. Conversar sobre qualquer coisa dentro de uma película do diretor é fácil. Das referências, passando pelas boas tiradas, ameaças implícitas e criando suspense para desembocar no ápice da tensão da cena. Este é Tarantino, fazendo o que sabe fazer melhor. As conversas dos personagens são naturais, como se ele soubesse o que passa na mente deles.  São papos comuns e que se sustentam frase após frase.

Django unchained

O elenco escolhido dá ainda mais consistência para o longa. Django (Jamie Foxx) talvez seja o menos interessante dentre os quatro personagens principais. Christoph Waltz está impecável – e tem grandes chances de levar o Oscar. Tudo é muito bem dosado pelo ator. A escolha dos sorrisos, a ironia em suas palavras. É uma atuação minuciosa, em que até uma pequena mudada no tom da voz faz toda a diferença. Leonardo DiCaprio está fantástico como o vilão da trama, prestes a explodir a qualquer momento – e quando o faz, é brilhante. Quem merece destaque também é Samuel L. Jackson, perfeito no papel de Stephen, o criado puxa saco de Calvin Candie. Ele é a tradução do que é o racismo e é dono de alguns dos melhores momentos do longa.

Leonardo DiCaprio - Django Unchained

Em suma, Django Livre é a essência da filmografia de Quentin Tarantino. Ele aprimora em certos quesitos, deixa alguns detalhes sem explicação (como um escravo sabe atirar e manusear um arma tão bem?) ou a explicação é pífia (se a intenção era comprar uma escrava, por que ocultar isso e fingir querer outro escravo para, no fim, acabar anunciando que quer comprá-la?), mas não deixa de ser um de seus trabalhos mais consistentes, maduros e divertidos.

4.5 STARS

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