Amor | Review

Amour

Amour
Austria/França/Alemanha, 2012 – 127 min
Drama

Direção:
Micheal Haneke
Roteiro:
Michael Haneke
Elenco:
Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert

Michael Haneke (Caché, A Fita Branca) não é francês. Ele é austríaco, assim como é Amor, seu mais recente filme. Não é comum, mas seu longa-metragem conseguiu algo raro: um filme de língua não-inglesa ser indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, direção e melhor filme. Os motivos para isso estão evidentes em sua película. Como é de costume de Haneke, esta obra é mais uma pedrada, um soco no estômago.

Amor acompanha a história de um casal aposentado, ex-professores de música, vivendo os meados dos seus 80 anos. Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) se dão bem como se ainda fossem jovens apaixonados. É aí que Anne, num simples dia, fica literalmente fora do ar. Ela olha para o nada durante alguns minutos e não reage a nada que o marido faz. Até que ela retorna, como se nada tivesse acontecido. Georges a leva ao médico para fazer exames e ver o que há de errado. O médico diz que não é nada sério, mas que seria bom fazer uma cirurgia simples para evitar que isso ocorresse novamente e num grau ainda maior. O que era para a melhora dela, fez com que ela piorasse, já que a operação caiu nos 5% das cirurgias desse tipo que dão errado.

Anne começa a ficar debilitada, e ela perde parcialmente os movimentos das pernas, especialmente no lado direito. Ela não quer retornar ao hospital, por isso Georges se prontifica de cuidar da esposa. Com isso, o amor deles é colocado à prova e Georges mostra o que é ser devotado a uma pessoa. O protagonista leva a sério os votos de “na saúde e na doença”. Conforme ela piora, Georges precisa se aplicar ainda mais para acalmá-la, alimentá-la, remediá-la, cuida-la, mesmo contra a vontade da filha do casal, Eva (Isabelle Huppert), que insiste com o pai e que deve haver alternativa, como um asilo ou o hospital, lugares que poderiam ser melhores para a mãe.

Heneke consegue ser novamente impactante, mas ele consegue isso através da fidelidade com a vida que Amor possui. Aqui não há a violência que ele tanto gosta e não há necessariamente uma agressão psicológica. A dor em Amor é realmente sentimental, de dentro do peito. É o amor colocado à prova de uma maneira dolorosa, torturante, exigindo cada célula do coração de Georges. Jean-Louis Trintignant cria um personagem delicado, que dedica a sua vida pelo amor de sua vida – para ele, não há nada mais importante do que isso. As situações que ele passa com Anne estão fincadas com os dois pés no chão, tão verossímil quanto a realidade em si.

Este cenário dramático é conduzido por Heneke de maneira crua, quase sem trilha sonora. Ele valoriza cada minuto de silêncio e mostra os espaços vazios na casa, ilustrando a velhice com fidelidade, do jeito que ela é. Lenta, frágil e, muitas vezes, dolorosa.

O coringa desta película é Emmanuelle Riva. Ela sofre uma transformação abismal durante o longa – particularidade que a Academia ama em uma performance. Riva retrata este declínio de sua saúde de tal forma que fica impossível separar atriz e personagem. Quem já teve a experiência de ver algum idoso doente a este ponto saberá muito bem do que estou falando. De mulher, ela se transforma em uma criança. É o retrocesso da mente e do corpo. Essa perda de controle de si é feita de maneira visceral por Riva, que se doa por completo neste papel – e o resultado é impressionante.

Como todo filme de Micheal Haneke, não há como terminar a sessão de Amor sem se sentir mal. Este é um trabalho minucioso, um romance de verdade em que o amor não é apenas da boca pra fora. Haneke não precisa utilizar clichês como recursos. A dor é verdadeira e o amor é o mais profundo que vi nas telas desde Longe Dela. O longa conta com atuações poderosas, momentos belos e tristes, e um final tão chocante que o espectador nem consegue julgar. Amor é um trabalho notável, que deixará o público com um aperto no peito e a sensação de ter levado uma paulada na cabeça. Difícil de ser digerido logo após a sessão, mas que fica cada vez melhor conforme as horas passam.

4.5 STARS

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