Até Que a Sorte Nos Separe | Review

Até Que a Sorte Nos Separe
Brasil, 2012 – 90 min
Comédia

Direção:
Roberto Santucci
Roteiro:
Paulo Cursino, Angelica Lopes
Elenco:
Leandro Hassum, Danielle Winits, Kiko Msacarenhas, Rita Elmôr, Aílton Graça, Rodrigo Sant’Anna, Julia Dalavia, Henry Fiuka, Maurício Sherman

“Brasil, mostra a tua cara”, já dizia o poeta Cazuza. Filmes como O Palhaço, Tropa de Elite, Cidade de Deus e Narradores de Javé são exemplos de produções que mostram do que é feito o país, exibindo a nossa identidade. Nem tudo ali é literal e condiz com a realidade, mas certamente mostra características do nosso povo. A partir da frase do ex-vocalista do Barão Vermelho, Até Que a Sorte Nos Separe pode ser analisado através de duas vertentes: a primeira seria considerar que este filme traduz o brasileiro, ou a segunda, onde questionamos por que fazemos este tipo de cinema.

Partindo da primeira análise, o filme simplesmente supre as necessidades da população. Em 10 dias em cartaz, o longa já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores nos cinemas. Logo, o brasileiro deve mesmo gostar deste tipo de humor. O que não me surpreende já que Zorra Total ainda está no ar, empobrecendo cada dia mais a comédia no país. É aí mesmo que entra o dedo da Rede Globo.  Até Que a Sorte Nos Separe parece um episódio prolongado de Zorra Total, só que com menos personagens e tentativas ainda mais frustrantes de atuação.

O enredo traz Tino (Leandro Hassum) e Jane (Danielle Winits), um casal que ganhou na Mega Sena e, desde então, vive da ostentação. Só que depois de tanto gastar, a conta está no vermelho. Tino, então, precisa dar um jeito de colocar as contas em dia, mas revela apenas o que está acontecendo para os filhos, já que a esposa está grávida e não pode se incomodar com nada para não correr o risco de ter complicações na gravidez.

O plot em si não é tão ruim. O problema é o que fazem com ele. O humor sem graça e de piadas forçadas, além de exageros em suspiros, falas, bocas, olhares e gestos é o que permeia Até Que a Sorte Nos Separe. São gags fáceis, manjadas, além de apostar em alguns momentos de mau gosto. O roteiro é risível, mas de maneira oposta do que se espera. São situações tão previsíveis, atuações tão overacting, que dá vontade de levantar da cadeira e sair do cinema logo nos primeiros minutos.  Mas teve gente que se divertiu e que realmente gosta disso. É a zona de conforto. Você já vai ao cinema sabendo o que esperar. Não importa se a piada tem 300 anos, se as performances são iguais às do já citado programa humorístico global, se a fórmula é a mais usada no planeta (o protagonista faz uma mancada, tenta consertar, seu par então descobre e se separa dele, fazendo com que ele tenha que fazer algo incrível – ou nem tanto – para se redimir e eles viverem felizes para sempre). O importante é você comer o mesmo prato todos os dias, por mais que a comida já tenha ultrapassado a data de validade há alguns anos, se é que algum dia ela teve um gosto bom.

Preocupa-me a noção de que Até Que a Sorte Nos Separe seja reflexo da nossa população. Por isso, vou contra esta ideia. A situação me lembrou de uma discussão que tive na faculdade em uma das aulas de Jornalismo, o que nos leva para a segunda parte da análise. Um colega meu disse que o jornalismo esportivo no Brasil cobre majoritariamente futebol porque o povo quer e a imprensa é o reflexo da sociedade. A ideia é de que se repete a mesma coisa, sem buscar inovar, porque o público quer que seja assim. Discordo da opinião. Será que o brasileiro quer mesmo só futebol? Será que se forem oferecidas outras opções aos brasileiros, eles não irão gostar tanto quanto o jogo mais popular do país? Prova disto é que durante as Olimpíadas e Paraolimpíadas, diversas pessoas estavam comentando nas redes sociais, interessadas nos atletas tupiniquins e nas diversas modalidades, sendo muitas delas totalmente desconhecidas da massa.

Por exemplo, o MMA, esporte que atualmente é muito popular por aqui, nem sempre caiu nas graças do público. Foi uma coisa nova que, através da internet, cobertura esportiva brasileira e dos próprios canais abertos (iniciando na RedeTV e depois na Rede Globo), ganhou popularidade e hoje é um dos principais assuntos nas páginas esportivas.

Não é necessário lotar o cinema com porcarias. Não é preciso só fazer esse tipo de filme porque se presume que as pessoas só gostam disso. O público também aprecia boas películas. O que falta é proporcionar oportunidades ao povo para que ele assista mais produções como O Palhaço, e menos produções como Até Que a Sorte Nos Separe.

O longa-metragem dirigido por Roberto Santucci (De Pernas Pro Ar) é classificado em sua página no site da Globo Filmes como “uma comédia de erros”. Ela é uma comédia de erros no roteiro, nas atuações, na direção… Resumindo: em tudo. Leandro Hassum e Danielle Winits estão cada vez mais irritantes a cada cena e é impossível rir ao longo dos 90 minutos de projeção.  São inúmeros exageros, estereótipos sociais recorrentes em comédias de Eddie Murphy, Adam Sandler e do próprio Zorra Total, como se não tivéssemos ultrapassado essa escala evolutiva ainda.

Até Que a Sorte Nos Separe é ruim do começo ao fim. Lamento pelos milhões de espectadores que assistiram e ainda assistirão esta obra, que vai contra o que chamamos de cultura. Mas, infelizmente, esta é a cara do Brasil. Ao menos, é o que os números das bilheterias nos mostram, mas reluto em concordar. Somos melhores do que esse humor infantilizado (da pior maneira possível), repetitivo, sem graça, que cada vez mais faz o espectador pensar menos e o faz ficar conformado com isso. Afinal de contas, é o que tem pra ver no cinema.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.