Moonrise Kingdom | Review

Moonrise Kingdom
EUA, 2012 – 94 min
Comédia

Direção:
Wes Anderson
Roteiro:
Wes Anderson, Roman Coppola
Elenco:
Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Bob Balaban, Harvey Keitel

A filmografia de Wes Anderson é uma das mais peculiares do cinema atual. Nem todos seus filmes são de qualidade incontestável, mas não se pode dizer que ele não possui personalidade. O diretor, inclusive, serviu de inspiração para Selton Mello em seu premiadíssimo O Palhaço.

Moonrise Kingdom não foge da personalidade única do diretor. Logo de cara ele já estabelece que o filme é seu. As tomadas passam pela casa inteira, enquadrando tudo ao redor e deixando sempre algum objeto ou personagem de destaque bem no meio.  Também é normal dar closes de frente no rosto de seus personagens. Anderson explora ao máximo tais técnicas, além de tantas outras. Ele se aventura nos olhares, nas expressões e extrai o máximo de sentimento.

Ambientado em 1965, numa ilha fictícia na Inglaterra, Moonrise Kingdom traz às telas uma história simpática, estranha e inocente. Há tempos não havia um filme que conseguisse abordar um relacionamento entre crianças de forma tão doce e desprovida de malícia. Se não me falha a memória, o último que conseguiu foi ABC do Amor, em 2006, quando Josh Hutcherson (aquele de Jogos Vorazes) ainda era só uma criança.

Sam Shakusky (Jared Gilman) tem 12 anos e é um órfão. Ele se encontra num acampamento de escoteiros, mas ele cria um plano para desbravar toda a ilha. Para acompanhá-lo nesta aventura, Sam recruta uma moradora da ilha, Suzy Bishop (Kara Hayward), com quem troca cartas há um bom tempo. Os dois se apaixonam através das epístolas. Suas personalidades combinam. Sam é rejeitado no acampamento, taxado como ‘estranho’, enquanto Suzy é tida como problemática por seus pais, os advogados Walt (Bill Murray) e Laura (Frances McDormand).  Por isso, eles fogem para longe de qualquer responsável.

Com a fuga dos dois menores, os pais de Suzy se desesperam, enquanto o chefe do acampamento Ward (Edward Norton) e o policial Capitão Sharp (Bruce Willis) iniciam a busca pelos dois. Além disso, é convocada a Serviço Social (sim, este é o nome da personagem de Tilda Swinton) para levar Sam para um reformatório, já que os seus atuais tutores decidiram que já cumpriram o seu dever com ele e não gostariam mais de tê-lo de volta em casa.

Anderson consegue criar personas únicas. Os papéis que ele cria são tridimensionais, sempre trazendo complexos emocionais. Cada personagem do elenco principal tem suas características bem definidas e algum problema para lidar. Tomemos os adultos como exemplo. Ward não sabe se seu emprego oficial é chefe dos escoteiros ou se é professor. Capitão Sharp encontra-se numa situação em que seu emprego é insatisfatório e que o amor de sua vida não o corresponde da maneira que ele gostaria. Laura lida com a filha problemática, que faz questão de deixar claro o ódio pela mãe, os três outros filhos e também o casamento frio com Walt. Este mantém uma dor quieta em seu peito, pois sabe que o amor em sua relação não existe mais e que sua esposa ama outro.

O filme trabalha muito bem com o emocional e se sai ainda melhor com as crianças. A relação entre Sam e Suzy é uma preciosidade. O amor que os une é puro e talvez o mais belo dentre todos os sentimentos. Há uma entrega literal entre eles. Suzy, por exemplo, é capaz de furar alguém com uma tesoura para ficar com o seu amado. O que mantém essa relação tão verossímil são as atuações de Jared Gilman e Kara Havward, unidas pelo roteiro minimalista de Anderson. Os jovens conseguem ser estranhos, por vezes assustadores, e transparecem a inocência. O texto traz diálogos palpáveis, com questionamentos corriqueiros de crianças e reflexões sobre a vida como um todo.

Uma questão importante é a da sexualidade. Em uma das cenas do longa-metragem, eles ficam apenas com roupa de baixo. Pela primeira vez, eles entram em contato direto com o sexo oposto. Vestidos daquela maneira, eles se aproximam, se abraçam, se beijam e se tocam. A linha entre o mau gosto e a poesia é tênue, altamente perigosa. Mas Wes Anderson trabalha essa cena de forma ingênua, sem malícia, com toda a cautela possível para não soar forçado ou repugnante. É a inocência da infância, algo que já foi esquecido por muita gente, incluindo muitas crianças, que já não a possuem mais na faixa etária dos personagens em questão. Por conseguir trabalhar dessa maneira é que Anderson prova ser um grande diretor.

Tudo o que a gente quer do cinema, o diretor nos proporciona. Anderson constrói um longa belíssimo, engraçado, com atuações de alto nível, uma narrativa estranha e original, belas cenas, planos criativos, uma trilha sonora deliciosa e uma ambientação irretocável. E não precisa de mais nada.

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