Na Estrada – On the Road | Review

On the Road
EUA / França / Inglaterra / Brasil, 2012 – 137 min
Drama

Direção:
Walter Salles
Roteiro:
José Rivera, baseado no livro de Jack Kerouac
Elenco:
Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Amy Adams, Tom Sturridge, Danny Morgan, Alice Braga, Elisabeth Moss, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Terrence Howard

A Geração Beat marcou a história da cultura tanto estadunidense quanto mundial. Depois a Segunda Guerra Mundial, muitos estavam cansados com o conformismo e o jeito quadradinho americano de viver. Devido a isso, adotaram a regra “pé na estrada”, vivendo sem compromisso, explorando o país, regados a álcool, drogas, sexo livre e jazz. Foi nesta safra de meados dos anos 50 até o começo dos anos 60 que muitos artistas (especialmente escritores) criaram obras que definiram uma era, como é o caso de On the Road, de Jack Kerouac.

Lançado em 1957, o livro conta a jornada do escritor pelos Estados Unidos e México ao longo de sete anos. Na obra, ele adota o nome de Sal Paradise e cai na estrada, bares e pernas com o amigo Dean Moriarty acompanhado pela namorada Marylou. Por décadas o livro tentou se desprender das páginas e receber tratamento cinematográfico.

Com produção de Francis Ford Coppola (de O Poderoso Chefão) e direção do brasileiro Walter Salles, Na Estrada finalmente chega às telas. Salles encontra-se no local onde melhor trabalha. Histórias que se passam nas linhas que cortam cidades, estados e países são a especialidade do diretor, a exemplo de Central do Brasil e Diários de Motocicleta.

Como era de se esperar, Salles trabalha bem ao mostrar belas tomadas das paisagens. Quando está dentro de um local, ele se aproxima dos rostos dos personagens, criando a atmosfera de estarem presos, nem sempre de forma literal, mas subjetiva e, às vezes, figurativa. A liberdade é expressada cada vez em que os personagens encontram-se na estrada ou em um local aberto.

O clima dos anos de 1950 está ali. O longa consegue transportar essa ideia de liberdade incondicional, o sexo tratado como um mero objeto de prazer e nada mais, além de introduzir o álcool e as drogas como algo para explorar e aguçar a mente e os sentidos. Não há momento algum em que o enredo condena tais ações, tampouco mostra as consequências destes excessos. A película é livre de julgamentos e lições de moral, não atribuindo um falso moralismo desnecessário, especialmente pelo fato de ser um retrato dessa geração.

Na Estrada é colocado no contexto certo, ao som de uma ótima trilha sonora criada por Gustavo Santaolalla (vencedor do Oscar por O Segredo de Brokeback Mountain e Babel), além de contar com canções de feras do jazz como Ella Fitzgerald e Son House. Apesar de ter seus pontos positivos, a película sofre com algumas coisas.

Esta é mais uma adaptação de um livro que parece ser enxugada, colocando apenas a síntese dos acontecimentos e se aprofundando pouco. Os personagens coadjuvantes interpretados por Alice Braga, Viggo Mortensen, Amy Adams e Elisabeth Moss são subaproveitados. Braga, por exemplo, aparece em menos de 5 minutos do longa. Ela desaparece tão rapidamente quanto surge. Kirsten Dunst parece ser a única convidada especial do elenco que não parece uma figurante e tem um pouco de relevância para a trama.

Por mais que os anos passem voando (são sete em duas horas de metragem), não é essa a sensação. A falta de tempo para tratar dos acontecimentos causa certa superficialidade e mesmo assim o longa sofre com falta de ritmo, algo que não falta ao jazz. Por causa dos itens citados, Na Estrada soa um tanto leviano.

Este estranhamento ocorre também pela atuação fraca de Sam Riley como Sal Paradise. O protagonista é introspectivo em demasia e não se sobressai em cena alguma. Riley está sem sal e é totalmente ofuscado pelo ótimo Garrett Hedlund. Este sim surpreende. O interprete de Dean Moriarty tem uma fome de viver insaciável, o que é inversamente proporcional às responsabilidades que ele possui, já que o personagem não mede as consequências de seus atos. Há momentos em que Hedlund lembra um pirado Brad Pitt em Clube da Luta, mas não chega a ser genial tal como.

A pergunta que não cala é o desempenho de Kristen Stewart. Quando um diretor exige dela, a atriz consegue sair do seu status Bella. Cheia de vida e sem palidez, Stewart é a melhor coisa de Na Estrada. Ok, ela passa boa parte do filme sendo excessivamente vulgar, mas não é qualquer atriz que consegue fazer isso e ainda passar credibilidade. Kristen consegue e dá um novo fôlego ao filme cada vez em que está em cena. Quando desaparece – em especial, na reta final – ela faz falta.

Há acertos e erros em Na Estrada. Falta emoção e mais profundidade nos personagens – especialmente nos secundários – mas sobra qualidade técnica. O cinema precisa de sincronia e harmonia entre todos os seus elementos, porém este não é um filme que respeita tal conceito. Salles já provou ser ótimo em contar histórias desse tipo, mas faltam ingredientes para incrementar sua última experiência.

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