Marina | Review

Marina, Espanha (1999)
Lançamento no Brasil: 2011
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: Eliana Aguiar
Editora: Suma de Letras
Ficção

por Cynthia Badlhuk

Do mesmo autor de A Sombra do Vento, o livro Marina foi o quarto romance publicado por Carlos Ruiz Zafón. A curta obra, com 189 páginas, foi lançada originalmente em 1999 na Espanha, e publicado somente em 2011 no Brasil. A demora deveu-se a uma disputa judicial pelos direitos do livro. O livro é destinado ao público infantil, mas ao escrever, o autor queria um romance que fosse um apelo para todas as idades.

Zafón é aquele escritor que surpreende nos detalhes e prende você na história do começo ao fim, cheio de drama, suspense e primeiros amores.  Não foi diferente em Marina, um livro extremamente descritivo, que te joga dentro de uma Barcelona fantasmagórica, sombria, chuvosa e lamacenta.  Você é convidado acompanhar a história como se fizesse parte dela.

Óscar é o personagem principal, 15 anos, aluno de um internato.  Em 1970 uma de suas principais diversões era se aventurar pelas avenidas e ruas de Barcelona, imaginando as pessoas que viviam naqueles casarões que se encontram abandonados. Entre seus devaneios, certa tarde algo lhe chama a atenção. Uma música diferente lhe convida a invadir uma dessas casas. Admirado com os quadros tão bem pintados, acaba se esquecendo de que era um invasor. Passeando pela mansão, encontra um relógio, com a seguinte gravação: Para Gérman, em quem fala a Luz. K.A. 19-1-1964. Aquilo lhe chama atenção de uma maneira tão intensa que faz com que ele dê milhões de significados para as palavras. Então ele é surpreendido pelo dono da casa.  Assustado, foge sem pensar. Só quando chega ao internato percebe que o relógio ainda está em suas mãos.

Ele carrega o relógio por dias, até que o peso na consciência o obriga a voltar na casa. Ao se aproximar do casarão, ao longe, vê uma menina, em cima de uma bicicleta, usando um vestido branco, cabelos ondulados compridos. Ela o surpreende com a falsa rispidez de suas palavras, questionando se ele era o cara do relógio.

E esse é primeiro encontro de Marina e Óscar. Duas curiosas crianças, com sede de desvendar o mundo ao redor deles. Óscar acaba se tornando membro presente da família composta pelo dono do relógio e pai de Marina, Gérman, Marina, a filha, e Kafka, o gato preto.  Então, já nos primeiros capítulos do livro, descobre-se que Gérman é pintor, tem uma doença terminal e parou de pintar quando sua esposa, K. A. morreu prematuramente.

Marina e Óscar constroem uma amizade muito forte, pois têm muitas coisas em comum. Entre seus passeios e conversas, Marina leva Óscar até um cemitério. Sentam ao longe e observam uma viúva, com o rosto escondido, trazendo flores para um túmulo sem nome. Marina conta que o ritual acontece mensalmente. Então o maior segredo deles começa a ser construído.

Todos temos um segredo guardado a sete chaves no sótão da alma. Este é o meu.” Estas são as palavras de Óscar, quando começa a contar a aventura que viveu com Marina. Eles vão buscar o que está por trás do ritual da viúva. Então, por onde procuram encontram sinais de uma borboleta negra, pessoas com má formação no corpo, bonecos reconstituindo seres humanos e um nome ligado a tudo isso: Mijail Kolvenik.

Marina me surpreendeu em muitos aspectos. O cenário em que a história se passa é extremamente deslumbrante. A maneira como o autor descreve os detalhes e objetos, te faz imaginar o cenário por completo. Aliás, tenho que dizer que Zafón realmente sabe dar vida e alma aos seus personagens. As linhas são carregadas de profundo conhecimento do interior do ser humano.

Gosto muito dos nomes que o autor atribui aos personagens, principalmente o nome do gato, Kafka. Talvez ou autor tenha tentando fazer uma alusão ao autor Kafka. Se for isso, ou não, fez com que eu simpatizasse muito com o gato.

Zafón também cria um clima de suspense incrível. No decorrer da história são dadas muitas pistas, vividas muitas situações que parecem não fazer sentido. Ele apresenta vários personagens e cada um conta a sua parte da história que contribui para o todo. E então, mais próximo do final, um personagem vem e amarra todos os acontecimentos, esclarecendo o mistério por completo.  E aí você acha que depois que o mistério acabou o livro também vai acabar. Foi aí que me enganei. O autor te segura em mais alguns emocionantes capítulos, levando certas pessoas, digo por mim, a se derramar em lágrimas.

Emociono-me com a fidelidade de Óscar, suas fortes lembranças e o seu sentimento por Marina. Desde quando se conheceram, Marina e Óscar se aproximam rapidamente e tudo acontece muito naturalmente. Desde pegar nas mãos até o primeiro beijo.  “Certa noite, era uma quinta-feira, Marina me beijou na boca e sussurrou no meu ouvido que me amava e que, não importa o que acontecesse, me amaria para sempre.”

E é só nos momentos finais que consigo entender de que maneira Zafón esperou que seu livro atingisse crianças e adultos. No seu suspense, ele pegou a parte curiosa da criança Óscar e dissecou em estranhos acontecimentos e a resposta para o enigma foi constrangedoramente simples. Mas os acontecimentos não poderiam ser mais complexos, porque então seria um livro adulto e não juvenil. E então o autor entra no íntimo do Óscar e expõe todos os seus sentimentos, daquela indefesa criança com seu amor transbordando da maneira mais pura. Nesse momento os mais velhos sentem uma ligação emocional direta com o personagem principal. É o amor e as lembranças dele que fazem de um romance juvenil virar um adulto, sem que seja facilmente percebida essa transição. E é por conseguir se aprofundar na alma do ser humano que Zafón continua sendo um dos meus autores favoritos.

“Por anos, fugi sem saber do que fugia. Pensei que, se corresse mais do que o horizonte, as sombras do passado se afastariam do meu caminho. Pensei que, se a distância fosse suficiente, as vozes de minha memória se calariam para sempre. Voltei, por fim, àquela praia secreta diante do Mediterrâneo.” (Zafón, Carlos Ruiz)

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