O Espetacular Homem-Aranha | Review

The Amazing Spider-Man
EUA, 2012 – 136 min
Aventura

Direção:
Marc Webb
Roteiro:
James Vanderbilt, Alvin Sargent, Steve Kloves
Elenco:
Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Campbell Scott, Embeth Davidtz

Muitos receberam com espanto a notícia de que Homem-Aranha sofreria um reboot. Isso quando fazia apenas oito anos do lançamento do primeiro longa-metragem baseado no personagem e há três do último. Como muita gente sabe, Homem-Aranha 3 teve uma recepção morna da crítica. Sam Raimi, diretor da trilogia, disse que não deixaria a Sony Pictures interferir em seu filme (o que seria o quarto sob sua batuta), pois a intervenção do estúdio para a inserção do personagem Venom no roteiro quando este já estava pronto foi um dos principais pontos negativos do último Aranha.

Já em pré-produção, com Tobey Maguire e Kirsten Dunst confirmados para retornar aos seus papeis, a Sony mandou todo mundo pra casa, incluindo o diretor, pois ele e o estúdio não chegaram a um consenso. Foi aí que surgiu a ideia de começar uma nova franquia do Homem-Aranha, com elenco e produção renovados e também mais baratos. Segundo o que rolava nos bastidores, Andrew Garfield, o novo Aranha, assinou contrato para três filmes: pelo primeiro, ele ganhou apenas US$ 500 mil, uma quantia ridícula para um protagonista de blockbuster que provavelmente quebrará a barreira de um bilhão de dólares. O preço duplica a cada filme. De US$ 500 mil vai para US$ 1 milhão e US$ 2 milhões, respectivamente para cada lançamento. O que a Sony queria era controle e mão de obra barata.

Com este início conturbado, era de se desconfiar de O Espetacular Homem-Aranha. Felizmente, na prática, o filme é melhor do que na teoria. Um dos motivos talvez seja pela contratação de Marc Webb (500 Dias Com Ela) para dirigir o longa. O diretor mostrara sua competência em seu primeiro trabalho no cinema por seu domínio da juventude e da cultura pop. Por isso, apesar de inexperiente, a escolha foi boa. Andrew Garfield e Emma Stone também foram boas escolhas, pois ambos estão no calor do momento em Hollywood e já mostraram competência na telona.

O principal problema de O Espetacular Homem-Aranha, no entanto, é a escolha da história que conduz este filme e provavelmente será o que levará adiante esta trilogia. Os pais de Peter Parker morreram num acidente de avião, mas isso não foi por acaso. Eles eram cientistas e estavam trabalhando com uma fórmula secreta para que o ser humano se regenerasse e se distanciasse da imperfeição. O vínculo entre eles e o Dr. Connors (Rhys Ifans) logo é descoberto por Peter, que vai atrás dele para tentar descobrir mais sobre o mistério dos pais. Aparentemente, tudo é uma incrível coincidência, onde até mesmo a picada da aranha teria relação com os pais de Peter, assim com o surgimento do Lagarto. Com a cena final, depois de uns minutinhos de créditos, fica evidente que tudo faz parte de uma conspiração gigantesca e isso incomoda. Estes acasos soam artificiais e mudam o foco da ideia de que Peter é realmente um azarado e que teve a infelicidade de ter perdido seus pais por um acidente qualquer.

Essa conspiração se perde no meio do filme. A chama é acesa no começo do longa e depois morre, retornando apenas com a voz no meio das sombras, nos créditos finais. Essa história moverá a trilogia, anunciada pela Sony logo após a película se sair bem nos primeiros dias de bilheteria.

Os pais de Peter nunca foram relevantes nos quadrinhos, exceto por esta história que não deu certo e jamais ousaram usá-la novamente até aqui. Como o foco da trama fica em torno deles, os tios Ben (Martin Sheen) e May (Sally Field) perdem a sua importância na vida dele. Diferente de todas as versões do Aranha, incluindo os filmes de Raimi, a morte do tio é construída com pouca emoção e não martela os pensamentos de Peter ao longo do filme. Logo ele deixa de lado a perda e, volta e meia, ouve o último recado dele no celular. E só. O que mais o incomoda é saber o que houve com os pais. Além disso, o roteiro trabalha mal os tios e a relação deles com o protagonista. Um dos elos mais fortes do personagem é degradado pelos roteiristas.  Apesar disso, Sheen, em sua pequena participação, faz valer a pena seus minutos em tela, mostrando, seja no tom de sua voz ou em suas feições, todo o carinho e amor que sente pelo sobrinho. Já Sally Field parece um pouco perdida em cena, mas talvez a culpa não seja dela, mas sim das cenas mal resolvidas em que aparece.

O que ainda pode incomodar o espectador é ter que ver o protagonista novamente no colégio, sofrendo bullying, tentando desenvolver seu primeiro relacionamento. Infelizmente, o romance não é tão bem trabalhado. O primeiro beijo entre Gwen e Peter não é atrativo e é sem emoção. Na cena, Peter está querendo contar à ela que é o Homem-Aranha, enquanto ela acha que este irá se declarar para ela. O ato, na verdade, se dá quando ele a puxa através de sua teia e assim Gwen chega à conclusão de que ele é o Aranha, sem que este precise dizer uma palavra. A impressão que fica é que ele a beija para este propósito e não pela paixão que sente. A cena, aliás, não chega perto do épico beijo na chuva entre Mary Jane e o Aranha no filme de Raimi. Não gosto de ficar comparando, mas as obras estão tão próximas uma da outra que fica impossível não submetê-las a isso. Há uma diferença gritante aqui. Se Mary Jane era a razão da vida de Peter (além da adorável tia May), em O Espetacular Homem-Aranha, o par romântico nem é tão romântico assim. Ao que tudo indica, é apenas uma quedinha.

Ainda há outros problemas no roteiro, como o fato de uma garota de 17 anos trabalhar numa empresa como a Oscorp e ser capaz de criar um antídoto que vai salvar a cidade; o que é há de diferente na aranha que pica Peter, afinal?; como um garoto que não trabalha tem dinheiro para montar o disparador de teia e a própria teia (neste filme, ela não é orgânica, ela é criada); como um personagem descrito como uma besta, sem condições de diferenciar o certo e o errado, consegue pensar e criar fórmulas. São coisas que podem passar despercebidas, mas que deixam furos e causam frustração ou desconforto, como é o caso da cena em que os andaimes de Nova York são alinhados para que o Aranha chegue até o prédio onde o Lagarto se encontra.

Naturalidade e clima denso

O Espetacular Homem-Aranha não é marcado só por más escolhas do roteiro. Há coisas boas aqui.  Webb se sai muito bem no que faz de melhor: criar bons diálogos entre os personagens. Além das frases de Tio Ben, as conversas entre Peter e Gwen são ótimas, com muita naturalidade e que cabem à personagens que, em tese, são adolescentes (o que não condiz com a idade do protagonista, que tem 28 anos). Andrew Garfield e Emma Stone, apesar da idade avançada e não convencerem como adolescentes por já terem passado da fase faz tempo, ainda assim conseguem nos fazer esquecer de que estão interpretando pessoas de 17 anos. A química entre eles é evidente (tanto que se tornaram um casal na vida real durante as filmagens) e isso reflete na qualidade do longa. A amizade criada entre eles é um dos pontos altos do filme e mais relevante do que o romance. A relação é convincente, com diálogos reais (dentro do possível para uma produção de super-herói) e timing impecável.

Outro aspecto importante neste reboot é o clima. O Peter Parker de Marc Webb é sério, movido por incógnitas e cada vez mais carrega o peso do mundo em suas costas. Sisudo na maior parte do tempo, Peter extravasa quando coloca sua roupa de super-herói. No entanto, ele percebe que suas escolhas pesam e tudo o que ele faz (ou deixa de fazer) causa um impacto enorme na vida das pessoas. É uma responsabilidade enorme que parece demais pra um mero adolescente. Acompanhamos, aqui, Peter crescer. O rapaz, que inicialmente queria apenas brincar, tem que lidar com decisões difíceis, assim como a que ocorre no final do longa, onde ele lida com uma promessa que, apesar de não querer cumpri-la, sabe que é o melhor caminho a seguir. Isso porque ele começa a ter noção de que, para ser um super-herói, antes precisa ser um homem. Ele começa a prezar pelo bem maior e não apenas si próprio. Apesar de essa noção ser mais bem trabalhada na reta final da película, ela deve mover as continuações da trilogia.

Na questão da ação, o que não falta são cenas bacanas, recheadas de efeitos especiais e com manobras radicais. Hoje em dia é difícil um blockbuster errar neste quesito, e o longa passa longe de cometer algum erro aí. O vilão, no entanto, tem algumas atitudes que não condizem consigo (ele tem o plano maligno de transformar as pessoas em lagartos (!)) e poderia ter sido explorado como um ser totalmente selvagem e não cheio de esquemas, além de parecer um tanto cartunesco. Ainda assim, dá para o gasto. O 3D não ajuda tanto quanto poderia, mas também não incomoda. Só não faz muita diferença.

O Espetacular Homem-Aranha, de espetacular, tem pouco. A pegada pode ser mais séria, mas não consegue alcançar o êxito que Batman Begins conseguiu. Além disso, o longa comete erros bobos e coloca tudo à mercê da coincidência excessiva e de uma conspiração gigantesca. Não é um trabalho ruim, mas passa longe da qualidade dos primeiros filmes de Raimi, especialmente o verdadeiramente espetacular Homem-Aranha 2. O que nos resta é acompanhar e ver o que acontece a seguir.

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