E aí, Comeu? | Review

E aí, Comeu?
Brasil, 2012 – 104 min
Comédia

Direção:
Felipe Joffily
Roteiro:
Marcelo Rubens Paiva, Lusa Silvestre
Elenco:
Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira, Emilio Orciollo Netto, Dira Paes, Juliana Schalch, Laura Neiva, Tainá Müeller, Seu Jorge

Confesso que quando vi o trailer de E aí, Comeu? no cinema, eu não me empolguei nenhum pouco. Especialmente quando a figura de Bruno Mazzeo apareceu em minha frente. Depois dos horrendos Muita Calma Nessa Hora e Cilada.com, não acreditava que ele pudesse me surpreender em algum de seus trabalhos futuros. Como o roteiro não passou pelas suas mãos, fica evidente o porquê da qualidade deste filme se diferir de suas últimas incursões ao cinema.

Devo confessar, ainda, que o slogan com o qual o longa-metragem era trabalhado em sua campanha publicitária também dá uma noção errada sobre o que se trata. “A primeira comédia verdadeira sobre o amor”. A busca dos três amigos que se reúnem quase que diariamente num bar para beber uma cervejinha e falar sobre tudo, especialmente mulheres, difere do que promete a frase citada. E aí, Comeu? é um retratado fiel das rodinhas de conversa de bar, protagonizadas por pessoas comuns, com problemas corriqueiros e que, de uma forma mais subjetiva, afetiva ou idealizada, ama as mulheres.

Primeiro temos o personagem de Bruno Mazzeo, Fernando, um arquiteto recém-separado de Vitória (Tainá Müeller) que tenta compreender os motivos que levaram à separação. Ao mesmo tempo em que se questiona os motivos de sua separação e está sem ter relações sexuais por meses, ele acaba se esbarrando com a vizinha, Gabi (Laura Neiva), que começa a dar indícios de que quer mais do que ser apenas vizinha do rapaz. O problema é que, apresar de não aparentar, ela tem apenas 17 anos.

Marcos Palmeira é Honório, aquele típico machão. O jornalista é casado com Leila (Dira Paes) e tem três filhas pequenas. O problema é que seu jeito individualista faz com que sua esposa resolva também sair sozinha com as amigas. Por causa disso, vem a suspeita de que talvez ele possa estar sendo corneado. O outro amigo da roda é Fonsinho (Emilio Orciollo Netto), um cara que só se envolve com prostitutas e gasta horrores com sexo, sem nunca se envolver emocionalmente. O ricaço de berço ainda tenta escrever um livro que parece nunca ter um final que lhe agrade.

O título do longa pode já soar um pouco ofensivo, especialmente para as mulheres. As conversas dos amigos são cheias de palavrão, envolvem sexo e piadas mais do que maliciosas, o que pode resultar numa perplexidade por parte do público feminino. Acredito, no entanto, que isso não é um empecilho. Logo a mulherada entra no clima descontraído do filme e começa a se divertir tanto quanto o público masculino.

A jornada dos amigos aqui tem a finalidade de apenas aprender a conviver com a vida. Em um resumo, diria que o filme é sobre o nada. Ou melhor, é sobre qualquer coisa, tal como um papo de bar. Claro que tudo isso envolve as mulheres, mas dá pra imaginar alguma coisa em nossas vidas sem elas? Os homens falam dela não porque a vêem como um mero objeto sexual. O desejo de querê-las é natural, assim como as mulheres também cobiçam os homens. Podem não falar da forma com que os rapazes deste longa falam, mas elas certamente os desejam. Sex and the City já provou isso para todos nós, transformando o girl talk em um dos seus principais trunfos para o sucesso, por serem fiéis ao mundo real.

O roteiro é de Marcelo Rubens Paiva, autor da peça em que a obra é baseada. A grande sacada dele, tanto nos palcos quanto aqui, é manter-se fiel à linguagem do dia-a-dia. Não só isso, mas a película também conta com um elenco que mostra-se totalmente à vontade com suas falas e seus personagens. Marcos Palmeira, quem diria, está ótimo, assim como o próprio Mazzeo. Palmeira mostra-se perfeito para carregar o fardo de protagonista, algo que a maturidade trouxe à ele. Ainda neste elenco, vale ressaltar que é impossível tirar os olhos de Laura Neiva, enquanto a melhor piada fica por conta de Seu Jorge (divertidíssimo com toda a malandragem exigida) interpretando um garçom com a cara do Seu Jorge. Outro trunfo da obra é conseguir ir além do simples papo de bar. Há constatações pertinentes sobre as dificuldades dos relacionamentos e sobre a épica guerra dos sexos.

Além disso, o diretor Felipe Joffily faz questão de mostrar, sempre que possível, a beleza do Rio de Janeiro, seja na madrugada, seja como pano de fundo através das janelas durante uma cena sexo.

O longa-metragem dá aquela caída quando tenta ser especialista no quesito amor, especialmente com o final óbvio e algumas falas que extrapolam o nível de clichê, como o diálogo entre Fonsinho e seu tio, interpretado por José de Abreu. Ainda assim, E aí, Comeu? mais acerta do que erra, equilibrando o bom humor com os problemas de relacionamento. Não é uma comédia romântica e o tema principal não é o amor. O filme o aborda, mas não se foca nisso. Prefiro olhá-lo como uma comédia despretensiosa sobre papo de bar, amizade e relacionamentos, e não algo com a pretensão de ser A comédia sobre o amor.

E aí, Comeu? prova que o cinema nacional sai ganhando muito mais quando é original e respeita a nossa cultura e costumes, ao invés de tentar copiar ideias estadunidenses e transformá-las em algo descartável.

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