Jovens Adultos | Review

Young Adult
EUA, 2011 – 94 min
Comédia / Drama

Direção:
Jason Reitman
Roteiro:
Diablo Cody
Elenco:
Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser

A roteirista Diablo Cody ficou conhecida por sua linguagem descolada e jovial que apresentou em seu primeiro script para o cinema, no longa-metragem Juno. Ela foi indicada ao Oscar, assim como o seu amigo e diretor Jason Reitman, também indicado pela Academia. Cody parecia compreender a cabeça de um jovem como ninguém e investia pesado em metalinguagem. Depois de ficar conhecida, escreveu Garota Infernal, um filme que todo mundo finge que não assistiu. Apesar deste fracasso, Cody retorna à parceria com Reitman e juntos eles constroem um dos melhores longas da safra de fim de ano que chegou só em 2012 no Brasil.

Jovens Adultos não é em torno de uma adolescente. Ao menos, não de uma convencional. Mavis Gary (Charlize Theron) tem 37 anos, mas continua agindo como se fosse uma adolescente. Apesar de ser divorciada e ser escritora fantasma de uma série de livros famosos do gênero jovem adulto, ela não deixou o seu espírito adolescente dormir. Ela continua apaixonada por Buddy (Patrick Wilson), um antigo namorado do colégio e acredita que eles devem voltar e passar o resto de suas vidas juntos. Mavis é um pouco perturbada, e se sente ainda mais inquieta quando a notícia de que a série da qual escreve sofreu o cancelamento e ela precisa escrever o último livro. No meio disso tudo, ela acaba recebendo um email de Buddy com foto da filha resultante do casamento dele com Beth (Elizabeth Reaser). Para Mavis, o email não é por acaso: ele é uma espécie de chamado de socorro para que Mavis vá para os braços de Buddy novamente.

Um tanto perturbada, bêbada por causa de diversas bebidas alcoólicas e litros de Coca Diet ingeridos, Mavis parte com seu cachorrinho dentro da bolsa para Mercury, cidadezinha onde morava. O plano de Mavis é reencontrar Buddy e reconquistá-lo. Ou não necessariamente, já que em sua mente ele permanece apaixonado por ela desde o colegial.

O que tinha tudo para ser uma comédia hilariante, especialmente pelos trailers lançados, torna-se um drama com pitadas de humor negro. A comédia no filme está bem próxima de uma tragédia. Veja bem, a situação de Mavis poderia ser tratada de uma forma bem humorada, talvez caindo até no pastelão, mas Cody é uma roteirista perspicaz e ela foge desse tipo de saída comum. Ela pega sua protagonista para trabalhar uma geração problemática que envelhece, mas esquece de crescer. As atitudes de Mavis em relação à Buddy e a fixação dela são genuínas de uma jovem colegial. Nota-se também a falta de noção de responsabilidade e sensibilidade com o próximo.

Assim como era no colégio, Mavis acredita que o importante é ser a mais bonita, a baladeira, a que consegue beber todas. Ou seja, tudo o que caracterizava o período de garota popular do colégio ou uma cheerleader. Quando se tem uns 15 anos, é até aceitável pensar assim, mas com 37 deveria ser diferente, no entanto a protagonista não consegue mudar essa visão. Mesmo criando uma amizade com o perdedor Matt (Patton Oswalt), ela não consegue mudar seu comportamento.

Nos momentos em que ela se encontra sozinha em cena, seja bebendo em um bar qualquer ou no seu quarto, percebe-se a depressão que assombra a personagem. A trilha sonora discreta, praticamente silenciosa, dá o tom denso em que a mulher vive. É um retrato de decadência e, assim como num trem desgovernado, não há nada que se possa fazer. Mavis vive no seu imaginário onde ela escolhe enxergar o que quer. Aliás, o imaginário é seu aliado para fugir dessa solidão que, em segredo, ela vive. Ela prefere não admitir, nem pra si mesma, que sofre de tal condição, mas fica evidente a seu estado. Mavis cuida da aparência como poucas. Frequenta quase que diariamente o salão de beleza, se veste da melhor forma possível. Ela expõe toda a sua beleza para esconder o verdadeiro “eu”. Por fora, ela é belíssima. Quem não a inveja, não é mesmo? Ainda mais naquela cidade insignificante, sob a perspectiva dela. Mas por dentro, a situação é oposta.

Conforme ela é injustiçada, entre aspas, ela utiliza o seu trabalho como escapismo daquela realidade que ela não quer enfrentar ou que ela enfeita. É interessante ver essa analogia, pois muitos escritores, de fato, devem escapar de suas vidas através de suas histórias, por isso digo que Stephenie Meyer deve ser uma mulher frustrada ou ter sido uma garota frustrada na época do colegial. Cody deve saber muito bem como é fugir nas palavras, já que ela era striper, então nada mais justo do que retratar um pouco de si aqui.

É possível rir em Jovens Adultos, mas a risada vem com um pouco de remorso. Não é uma risada plena, sem culpa. Assistimos Mavis se afundando conforme vai insistindo nessa juventude que já não existe mais e essa fantasia que nunca existiu. No entanto, sabemos que esse retrato não é específico. Ele pode ser muito abrangente. Vemos ainda muitos jovens adultos, de 30 e poucos anos, que não conseguiram seguir com sua vida e se mantém presos no mesmo lugar, seja no sentido figurado (como a adolescência prolongada da protagonista) ou no literal. Não é apenas Mavis que necessita se livrar disso. Claro que suas ações são bem mais evidentes e fáceis de ser julgadas, mas aquelas pessoas da pequena cidade continuam exatamente iguais, estagnadas no tempo. Enquanto o enredo nos faz levar crer que Mavis precisa amadurecer, os demais – salvo um ou outro – estão conformados com o status quo em que se encontram. O conformismo e a falta de ambição que assola muitas vidas. Se Mavis teve a coragem de sair da cidade uma vez, infelizmente ela se esqueceu de deixar pra trás sua juventude. Mesmo estando longe, ela ainda é a mesma. Faltou amadurecer no meio do caminho. Quem sabe a resposta para isso seja o trauma que ela enfrentou e, devido a tal fato, ela preferiu viver no sonho do que poderia ter sido e então estagnou-se na mesma época e no mesmo lugar comum, por mais que estivesse há quilômetros de distância.

O diretor Jason Reitman consegue colocar tamanha profundidade do texto de Cody em tela, sem necessariamente julgar sua protagonista. Afinal, por mais que ela cometa erros e seja uma pessoa odiosa, ela é apenas um ser humano. E esse fundo de poço é interpretado brilhantemente por Charlize Theron, numa atuação convincente da atriz. Theron estava quieta há um bom tempo, mas retorna às telas com muita força nesse papel complicado de ser interpretado, pois para ser piegas aqui é só um passo. Contudo, a sul-africana se sai muito bem e carrega toda a emoção e o humor de culpa com facilidade.

Jovens Adultos é uma ótima dramédia e vai muito além do que o gênero jovem adulto que dá à luz obras como Crepúsculo, entre outras porcarias. Diablo Cody voltou à sua forma afiada que a consagrou em Juno e Reitman continua um diretor precioso, de filmes minuciosos e com emoções verdadeiras.

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