Foo Fighters no Lollapalooza Brasil 2012

Era por volta das 22h daquela noite de sábado. Encontrava-me no meio de 75 mil pessoas. Eu era apenas mais um entre tantos fãs. Numa noite com poucas nuvens, onde dava para ver as estrelas e, especialmente, o cansaço das pessoas ao meu redor, não faltava paixão em todos. A paixão por um ícone do rock. Eu estava esmagado com minhas costas em uma grade, segurando-me com a mão esquerda, enquanto a direita levantava em cada canção. Dave Grohl, lá no palco, exibia desgaste, tanto em suas feições após duas horas de show, quanto na voz. O cisto que o incomoda e o fez cancelar alguns shows da turnê neste primeiro semestre do ano deu as caras, mas não o impediu de berrar a ponto de ficar com o rosto extremamente vermelho, com as veias saltando em seu pescoço.

As 75 mil pessoas ali estavam se sacrificando por ele e sua banda desde o início da tarde. E Grohl não deixou de prestar seu sacrifício pelo público ao se esforçar ao máximo para arrancar as notas, por mais que desafinadas e por vezes sem fôlego, durante algumas canções como “White Limo” e “Best of You”. Nesta, última da setlist normal, foi onde o ápice emocional ocorreu. O público enfrentava as dores pelo corpo, o desgaste físico, a sede, a fome, a falta de ar. Grohl diz que não quer parar. “Can we play more? If we play more, will you fucking sing as loud as you can? You gotta sing loud / Podemos tocar mais? Se nós tocarmos mais, você irão cantar o mais alto que puderem? Vocês têm que cantar alto”. Ele questiona o quão alto conseguimos tocar. Na primeira tentativa de tentar expressar o potencial de nossas vozes, não foram todos que tiveram fôlego para isso. “That’s it? / É só isso?” ele diz, com sua cara de deboche, naquele tom irônico e engraçado que ficou marcado pela videografia da banda. Ele pergunta novamente o quão alto conseguimos cantar e o público tenta fazer mais barulho, mas ainda não é o suficiente para ele. Ele mexe suas mãos, fazendo sinal de mais ou menos. Dá pra ouvir a risada da galera no Jockey Club. Na terceira vez, todo mundo utiliza sua força reserva e berra o mais alto possível e então o Foo Fighters começa a cantar o hit, após mais uma brincadeirinha de David dizendo “Thank you very much”, no ritmo do coro do público ao ovacionar a banda. “I’ve got another confession to make, i’m your fool. Everyone’s got their chains to break, holding you / Eu tenho outra confissão a fazer, eu sou seu tolo. Todos têm suas correntes para arrebentar, segurando-os”. De fato, o show parece feito para Grohl quebrar as correntes que estão o prendendo e mostrar para todos do que ele e seus amigos são capazes. O show é libertador.

David canta os berros desafinados junto ao coro do público que canta praticamente todas as músicas em alto e bom som. Logo no início da canção, eu e meus amigos de Brusque pegamos as folhas impressas com as letras garrafais “OH”. Tanto nós quanto um pessoal de Santos e Santo André que estava ao nosso lado carrega tais placas. Com certo temor, preparávamos par erguê-las na hora H. Quando achávamos que somente nós e mais alguns iríamos levantar aquelas duas letras, nos surpreendemos. E o melhor: não apenas nós, mas em especial, David Grohl. O público tomou conta do momento e gritou com todo o ar que restava em seus pulmões. Com as letras OH levantadas e sendo cantadas por mais de um minuto direto, Grohl sentiu. Dava pra ver em seu rosto, a partir de seus traços, da forma com que seus olhos estavam levemente repuxados, que a emoção havia lhe atingido. Comovido, ele diz “I fucking love you, people. You’re beautiful people / Eu amo vocês pra c***lho. Vocês são lindos”.  A ovação é geral.

Quando o Foo Fighters entrou no palco pontualmente às 20h30, horário de Brasília, os fãs foram ao delírio ao som da potente “All My Life”. Em duas horas e meia de show, não faltou hit mais célebres quanto outros mais discretos. O início se mostrou potente, com a banda inteira mandando ver em cada departamento. A segunda canção que eles emendaram foi “Times Like These”. O público gritava com cada canção. As faixas mais recentes do excelente álbum Wasting Light foram igualmente acompanhadas pelos mais de 70 mil presentes na cidade de São Paulo para assistir a este show inesquecível. “Rope”, “Arlandria”, “White Limo”, “Walk” e “Dear Rosemary” foram recebidas calorosamente.

O show prosseguiu com todos os sucessos que qualquer um poderia imaginar. Houve tempo também para a participação de Joan Jett, amiga de Grohl. Para quem não pôde conferir o show da roqueira no outro palco porque quis ficar esperando pela atração principal do festival Lollapalooza, teve ao menos a oportunidade de assistir a esta lenda do rock. Diferente da apresentação no Chile, aqui no Brasil eles cantaram juntos não apenas “Bad Reputation”, mas também a clássica “I Love Rock N Roll”. O som de quatro guitarras, baixo e bateria, além das vozes marcantes de seus intérpretes atenuaram a participação como um dos melhores momentos do show.

Quem teve a honra de acompanhar a apresentação, conseguiu ver a paixão de muitos fãs por uma banda que parece ter mais tempo de estrada do que de fato tem. David Grohl surgiu como o salvador do rock no ano passado, apesar de afirmar que “o rock não precisa ser salvo”. Não há uma explicação ao certo para compreendermos como David ganhou o título de roqueiro supremo da indústria fonográfica, mas certamente a sua paixão pelo gênero e a forma como consegue se conectar com milhares de pessoas num lugar gigantesco certamente estão entre as opções. O vocalista soube usar muito bem o palco Cidade Jardim. Ele correu de um lado pro outro, pro meio do público e voltou pro centro com seus outros colegas. Coisa de quem já está há muito tempo na estrada, tanto que o Foo Fighters foi o único grupo que utilizou 100% do espaço. E o usou muito bem. David fala um monte ao longo das duas horas e meia de apresentação e realmente parece se importar com cada cabeça ali. Conseguir esta conexão, expressada muito bem pelos presentes, não é fácil.

Um dos momentos mais interessantes da noite foi quando o vocalista apresentou sua banda. O guitarrista Pat Smear é o cara que não combina com o restante. É um tiozão se divertindo e que parece que não se importa com muita coisa, mas sabe o que faz com a guitarra. O único ovacionado é Taylor Hawkins, o ex-baterista de Alanis Morissette e que assumiu as baquetas no Foo Fighters a partir do terceiro disco da banda. Taylor se mostrou emocionado com a homenagem do público e entregou suas baquetas para Grohl nos lembrar da origem do frontman. Ele tocou na batera “Cold Day in the Sun” enquanto Taylor desafinava de maneira singela nos vocais. Mais tarde, com Hawkins na bateria novamente, rolou um cover de  “In the Flesh”, do Pink Floyd.

Não foi um show perfeito. Grohl está no seu limite e precisa cuidar muito bem de sua voz, um de seus bens mais valiosos. Desafinações a parte, o restante do show foi excepcional. Do começo ao fim, o público se conectou, cantou, pulou, aplaudiu, gritou, chorou. A apresentação do Foo Fighters no Brasil foi apoteótica, e o que não ganhou na perfeição de notas musicais, ganhou certamente na forma de explorar seus limites, de conduzir o show e o público. Quem estava no Jockey Club naquela noite presenciou muito barulho de qualidade. O final, com “Everlong”, selou a despedida de um show sensacional e que vai ficar na cabeça de cada um até o dia em que Grohl e sua trupe colocarem os pés novamente por aqui. E esperamos, sinceramente, que não demore mais 11 anos para que isso aconteça.

Veja abaixo a setlist e o show na íntegra.

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