Jogos Vorazes | Review

Os primeiro minutos de Jogos Vorazes são uns dos mais importantes pra mim. A abertura logo conta a situação, onde o país entrou em colapso consigo mesmo, virou uma verdadeira praça de guerra, mas foi contida pelo governo. O país, agora chamado de Panem, é dividido em 12 distritos, além da Capital, onde há o controle central. Numa espécie de oferenda, o governo seleciona um garoto e uma garota, entre 12 e 18 anos, de cada distrito. Depois de selecionados, estes tributos são colocados em um jogo cruel, onde somente um deles pode sair vivo. Tudo isso, transmitido ao vivo para todo o território nacional. Esse é o plot, mas não é o que é mais interessante neste início. O que deixa o espectador com os olhos vidrados é a relação de Katniss (Jennifer Lawrence) com sua irmã caçula, Prim (Willow Shields). Numa demonstração de afeto intensa, Katniss mostra estar disposta a protegê-la de qualquer jeito, a qualquer momento. Essa relação, apesar de ser mostrada tão rapidamente no início do longa-metragem, acaba demarcando os passos a serem trilhados ao longo da jornada. Esse sentimento é palpável. Dá pra sentir esse amor quase maternal que Katniss possui em relação a sua irmã.

Não demora muito para começar o sorteio para ver quem vai até a Capital participar dos “Jogos Vorazes”. O medo fica estampado na cara da pequena Prim. Quando ela é escolhida, ela fica pálida, quase sem ação. Com sua irmã prestes a subir ao palco, Katniss, num momento de desespero, se oferece como tributo no lugar dela. Quem fica catatônica, agora, é a protagonista. E palmas para Jennifer Lawrence. Em poucos minutos, ela garante o sucesso de Jogos Vorazes. Como ela faz isso? Mostrando muito talento e que diferente de muitas personagens femininas recentes. A sua é um forte símbolo feminino e que representa a mulher como ela merece.

Suzanne Collins, a criadora da trilogia literária iniciada com Jogos Vorazes, consegue ser bem mais sucedida do que uma fã sua, Stephenie Meyer, mãe da saga Crepúsculo. As comparações eram inevitáveis. Afinal de contas, o gênero jovem adulto (uma denominação literária recente) vem fazendo muito sucesso. É aquela trama que passa longe do infantil, mas não é demasiadamente sério a ponto de apenas doutorandos se interessarem. Com linguagem simples, mas eficiente em viciar o leitor com os pensamentos de suas personagem, o gênero vem tomando espaço tanto nas livrarias quanto nos cinemas. Percy Jackson é outro exemplo, mas o mais poderoso destes é Harry Potter. De qualquer maneira, a comparação às obras de Meyer e J.K. Rowling para por aí. Se há uma igualdade entre eles, certamente é a promessa de arrecadar centenas de milhões para os cofres dos estúdios.

Diferente da protagonista de Crepúsculo, a sem graça Bella Swan, Katniss Everdeen é determinada, forte, tem diversas habilidades (e choramingar a toa não está entre elas) e não desperdiça seu tempo buscando homens. Sua luta é em prol de sua família. Ou seja, a escritora sabe como construir uma figura que simbolize, de fato, a mulher, deixando de lado a fragilidade e dependência machista que Meyer prega em sua obra.

Voltando para a trama, Katniss é jogada no meio deste jogo brutal. Além dela, é escalado para representar o Distrito 12 Peeta (Josh Hutcherson), filho do padeiro e que deixou algum vestígio no passado da protagonista. Ambos são treinados, juntamente com os demais competidores, e após quatro dias são colocados para lutar pela sobrevivência e uma chance de vida melhor.

Apesar de vir de um romance campeão de vendas, as ideias jogadas aqui são interessantíssimas. A visão de um país todo controlado pelo sistema, numa falsa democracia, feita pra vender uma versão mais bonita do que realmente é a situação, não é nova, mas é muito bem situada por Suzane Collins. O diretor Gary Ross (Seabiscuit) transpõe esse conceito com eficiência. Outra coisa que prezo é a forma como o reality show é colocado na tela. É fácil ludibriar o espectador. De qualquer maneira, o público gosta de ver o espetáculo. A questão é: até quando? Quando iremos nos tocar de que nós incentivamos este tipo de circo de horrores? Lá no começo da película há um diálogo em que o foco é exatamente este. Se pararmos de assistir, não haveria mais isso. E essa situação serve para diversas coisas que existem em nossa realidade atual.

Ross também acerta em não transformar esses elementos em trivialidade. A violência entre os jovens é impactante. No entanto, a direção cuida para que isso não se torne algo explícito, de forma exagerada. Não há tripas voando, pescoços pendurados, sangue jorrando. Não é um cinema gore ou trash. Nem por causa disso o longa é menos eficiente nesta fatia. A brutalidade não fica de lado em momento algum. A mera menção de chacina adolescente já seria o suficiente, mas ver diversos corpos espalhados pelo chão funciona melhor. Entrando neste campo, vale citar a ação no filme. Não é um longa-metragem recheado de pancadaria, mas as cenas de ação estão lá, presentes quando são requisitadas. E elas contribuem muito para a trama e o andamento da história. Não apenas por causa delas, mas toda a película é tomada pela tensão e adrenalina, em certa escala.

Também há romance. Entretanto, passa longe de ser o foco. O romance é apenas utilizado como um suporte para a trama. No caso, o personagem de Peeta se diz apaixonado por Katniss durante entrevista em rede nacional. Daí fica a incógnita no ar se isso é apenas uma maneira de beneficiá-lo no jogo, criando um romance que não existe de verdade, ou se é uma confissão do fundo do coração. E não espere por melação ou declarações de amor piegas. É com muita sutileza e cuidado que o assunto é utilizado em tela.

Jogos Vorazes se presta a não ser apenas mais um filme. Pode ser uma ótima aventura e entreter com facilidade, mas ele não para por aí. É uma película com conteúdo. A obra certamente busca inspiração em outras, como 1984, V de Vingança, Battle Royale, só para citar algumas. E a partir disso, consegue criar uma história consistente e bem contada, personagens carismáticos e com profundida, além de ter um bom elenco – em específico, a ótima Jennifer Lawrence, irretocável. Não há motivo algum para evitar Jogos Vorazes, um blockbuster que não ofende a inteligência do espectador.

The Hunger Games
EUA, 2012 – 142 min
Ação / Drama

Direção:
Gary Ross
Roteiro:
Gary Ross, Suzanne Collins, Billy Ray
Elenco:
Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Wes Bentley, Toby Jones

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