A Invenção de Hugo Cabret | Review

Hugo
EUA, 2011 – 126 min
Aventura

Direção:
Martin Scorsese
Roteiro:
John Logan, baseado no livro de Brian Selznick
Elenco:
Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Jude Law, Christopher Lee, Richard Griffiths, Helen McCrory

Prêmios:
Oscar de melhor direção de arte; fotografia; edição de som; mixagem de som; efeitos especiais
Globo de Ouro de melhor direção (Martin Scorsese)
BAFTA de melhor direção de arte; som
 

Estava tentando lembrar o primeiro filme que assisti no cinema. Pelas minhas memórias, se não estou enganado, foi Gasparzinho. Ok, não é um filmaço. Não é um filme de Steven Spielberg, por exemplo. Mas lembro que a sensação de estar naquela sala escura não tem comparação. Não sei se foi desde a ocasião, mas é fato que o cinema marcou diversas fases da vida e ajudou a construir a minha personalidade. E tudo começou com a sessão dublada de Gasparzinho, uma película simpática e até mesmo emocional. O cinema tem o poder de fascinar e nos fazer acreditar que os mais belos sonhos são atingíveis. O prazer de assistir a um bom filme tem um sabor inigualável, podendo nos deixar apreensivos, assustados, nos fazer rir até doer a barriga, como pode nos comover e nos levar às lágrimas.

Algumas vezes, quem aprecia esta arte, acaba se decepcionando com a forma que ela é tratada. Desculpem-me, mas filmes de Adam Sandler e as explosões sem sentido de Michael Bay são um desserviço à sétima arte. Pode até ser uma boa diversão (ou não), mas não é arte. Estes são apenas dois exemplos soltos. Existem diversos deles, mas não dá pra falar de tudo. O que importa é que dói pagar 20 reais em uma sessão e assistir a um filme horroroso. De tempos em tempos, felizmente, surgem algumas películas que nos mostram que ainda é possível se fazer cinema de verdade. E isso inclui inovar, homenagear o passado sem ser piegas, emocionar, trazer ótimas atuações e um visual estupendo. Além, é claro, de uma história que não esqueceremos logo após sair da sessão.

 

A Invenção de Hugo Cabret, o mais recente filme de Martin Scorsese, pode soar estranho. Afinal de contas, Scorsese sempre foi o cara conhecido por suas cenas antológicas de violência nua e crua como em Os Bons Companheiros e Os Infiltrados. Mas há uma justificativa plausível para sua primeira incursão ao gênero infantil. Sua filha Francesca, de 12 anos, nunca pôde assistir a um trabalho do pai, por motivos óbvios. Por causa disso, Scorsese resolveu adaptar o livro de Brian Selznick. Por mais difícil que possa parecer, Scorsese se sai muito bem nesta nova jornada em sua carreira cinematográfica e prova que um bom diretor é eficiente em qualquer gênero.

 

A história que acompanhamos de perto aqui é a do menino Hugo Cabret (Asa Butterfield), órfão de pai e mãe. Acolhido por seu tio beberrão, agora ele vive nas passagens escuras de uma estação de trem em Paris, nos anos de 1930. Como seu pai (Jude Law) era relojoeiro e craque em consertar relógios, Hugo também tomou gosto pela coisa, de fazer tudo funcionar. Ele acaba ficando com a função de arrumar todos os relógios da estação, algo que seu tio deveria fazer. Andando pra lá e pra cá, Hugo busca uma forma de reparar os danos de um robô, chamado aqui de autômoto, deixado por seu pai. Nesta jornada por peças e comida, Hugo constantemente foge do Inspetor (Sacha Baron Cohen) que tem o prazer de capturar crianças sem-teto. É na estação também que Hugo faz amizade com Isabelle (Chloë Grace Moretz), também órfã e que mora com o padrinho Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos e doces ali na estação.

 

Inicialmente, A Invenção de Hugo Cabret já deixa o espectador de boca aberta. A visão de Paris em 3D numa tomada que viaja pela cidade é de tirar o fôlego. Como se o lugar já não fosse bonito o suficiente, Scorsese capricha ainda mais para deixar tudo brilhante. Isso é o suficiente para ganhar a atenção necessária para acompanharmos o resto da projeção. Felizmente, o diretor mantém o espectador com a boca aberta e deslumbrado com o visual e o enredo.

 

A experiência de assistir A Invenção de Hugo Cabret no cinema é única. A produção do longa-metragem cuida milimetricamente de tudo em cena. O visual é embasbacante. Aliás, o 3D aqui é utilizado com perfeição e realmente ajuda a contar a história. Scorsese mostra que é possível utilizar a tecnologia com inteligência e para beneficiar o trabalho, e não apenas maquiar uma obra menos interessante. Um grande diretor é um grande diretor de qualquer jeito e Martin prova isso ao nos proporcionar a melhor experiência tridimensional desde Avatar. Sim, Martin usa tão bem assim o recurso e é um verdadeiro crime não ir ao cinema vivenciar A Invenção de Hugo Cabret na telona.

 

Outra coisa feita com perfeição na tela é o trabalho do elenco. Chloë Grace Moretz vem provando seu valor há um tempinho e aqui demonstra mais um pouco de todo o seu potencial. E desta vez, fingindo um sotaque britânico perfeito. Tenha inveja, Anne Hathaway. Asa Butterfield é um doce de criança e traduz perfeitamente os sentimentos de seu personagem. Além disso, temos Ben Kingsley em sua melhor atuação em anos. Mas daqui a pouco falo dele. Vale destacar também Sacha Baron Cohen, o genial criador de Borat, mostrando ser capaz de entregar uma performance cheia de emoção e divertida, mesmo sem piadas.

 

O longa vai se desenvolvendo na tela e a cada cena, mergulhamos em uma história que envolve amizade, família, perda, dores do passado e a paixão pela sétima arte. Lá pela metade do filme, a trama sofre uma virada de grande importância. O Georges da tal loja é apenas um dos precursores do cinema como conhecemos hoje, o famoso Georges Méliès. A partir desse momento, o filme se transforma numa jornada intensamente emocional e que honra a memória de um dos maiores cineastas que já existiu. Ben Kingsley, em sua segunda parceria com Scorsese (a primeira foi em Ilha do Medo), comove a platéia com sua soberba atuação, construindo uma maré de sentimentos, revirando memórias que misturam alegria e muita dor. Quando somos apresentados ao cinema de Méliès chegamos ao auge desta obra. Impossível não se fascinar com a projeção na casa dele e, depois, deixar as lágrimas correrem com esta homenagem de Scorsese ao francês e sua história.

 

Se você ainda não teve sua paixão despertada pelo cinema, fica difícil não se apaixonar por esta arte através de A Invenção de Hugo Cabret. Pode ser a descoberta do cinema tanto para você, como foi para os personagens do longa. Se O Artista homenageia o passado, A Invenção de Hugo Cabret dobra as apostas. Além de prestar homenagem ao passado, ainda aponta para o futuro com suas técnicas impecáveis e o 3D muito bem empregado. Scorsese nos brinda com a beleza da sétima arte numa verdadeira declaração de amor. Tudo isso, de forma inocente, num filme infantil, mas não menos poderoso e intenso do que sua filmografia voltada para os adultos. Aliás, emocionar do jeito que ele faz aqui, vi poucas vezes. A Invenção de Hugo Cabret é lindo, uma verdadeira obra prima. Isso nos mostra que o cinema ainda é capaz de nos fascinar como outrora, mesmo que você tenha 10, 20, 40 ou 80 anos. Há tempos eu não via algo tão bom na sala escura. Obrigado por este presente maravilhoso, Martin.

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