As contradições do Oscar 2012

É verdade que nunca vi um ano sequer em que os especialistas e os “especialistas” em cinema não tenham reclamado de uma lista de indicados ao Oscar. Toda e qualquer premiação é polêmica, comete injustiças e deixa alguma coisa boa de fora. É algo corriqueiro. Entretanto, há tempos a Academia não pisava tão feio na bola. É claro que 2011 não foi um ano inspirador, mas nem por isso ele deixou de ter obras criativas e originais. Então como perdoar uma premiação que ignora por completo os destaques do ano para, novamente, apostar em filmes que ninguém ou poucos assistiram?

Anne Hathaway e James Franco no Oscar 2011

Há anos a audiência do Oscar vem caindo e a Academia não consegue segurar esta brusca queda. Apesar de tentativas de colocar pessoas jovens para apresentar (Hugh Jackman, Anne Hathaway e James Franco), nenhum deles fez da cerimônia algo agradável. Depois do barulho ensurdecedor do público ao ver que os velhos votantes deixaram Batman – O Cavaleiro das Trevas de fora das categorias de melhor roteiro, direção e filme em 2009, provavelmente porque o protagonista é um super-herói, a Academia tentou uma nova opção a partir de 2010: colocar 10 indicados na categoria de melhor filme para poder abranger todos os gostos e agradar também a massa, com películas que eles assistem. Apesar de a intenção ser boa, a prática não foi tão boa quanto a teoria. Filmes de qualidade duvidosa (Um Sonho Possível), que ninguém nunca viu (Um Homem Sério) e superestimados (Inverno da Alma, Educação) pintaram nestas listas. Filmes desnecessários, que passam longe de qualquer lista de melhores do ano e que não alcançam o público de forma alguma. A estratégia que deveria mudar o jogo, apenas intensificou a caretice da premiação.

Um Sonho Possível

Este ano, para piorar a situação, não havia mais um número X de indicados por categoria. Na de melhor filme, há espaço entre 5 e 10. Para encontrar o número da sorte, os votantes escolhiam seus favoritos e, quem chegasse a uma quantidade certa de votos (seria uma espécie de média), entraria nos indicados. A mesma coisa ocorreu nas demais categorias, o que explica o fato de haver apenas dois nomeados à melhor canção, por exemplo. Isso tira a oportunidade de alguns filmes terem reconhecimento pela mera indicação, o que já é uma conquista para muitos realizadores. Mas o Oscar fez questão de tirar um pouco mais do brilho quase fosco que possui.

Tão Forte e Tão Perto

Não me recordo de um ano tão ruim entre os indicados à melhor filme. Dos 9 indicados, há contradições gritantes. Pra começar, temos Tão Forte e Tão Perto, um filme que não chamou a atenção do público e que a crítica desceu a lenha (com razão). De forma milagrosa, ali está entre os melhores. Além desta indicação, ganhou outra em ator coadjuvante. A explicação (que nem chega a ser) plausível é porque Stephen Daldry (O Leitor) o dirige. Outro perdido ali é a megalomania emocional e de clichês de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra. Temos também o superestimado A Árvore da Vida, que quase ninguém mais lembrava. E com razão. Como explicar a inclusão destes longas, enquanto excelentes filmes como Drive, Melancolia e 50% ficaram de fora? Se quisessem algo diferente, deveriam ter posto Missão Madrinha de Casamento na lista, já que é uma das melhores comédias deste século. E a falta de Harry Potter hein? Ninguém esperava que o longa fosse ganhar o prêmio, mas só a indicação seria uma demonstração de reconhecimento por tudo o que a saga representa na história do cinema. Não só por isso, mas também pelo fato de o longa ser um excelente trabalho, melhor do que qualquer um dos indicados, exceto A Invenção de Hugo Cabret.

Ryan Gosling - Drive

Mas ainda fica pior. No quesito de atuações, houve também as injustiças. A academia parece ter esquecido que 2011 foi o ano de dois nomes: Michael Fassbender e Ryan Gosling. Enquanto o primeiro ajudou a ressuscitar a franquia X-Men em Primeira Classe, além de polemizar em Shame e Um Método Perigoso, o segundo só entregou atuações acima da média tanto como um herói calado em Drive, abrindo os olhos na política em Tudo Pelo Poder ou de forma simpática em Amor a Toda Prova. Eles ficaram de fora. Como explicar também a falta de Albert Brooks em uma atuação fora do comum em Drive? E Leonardo DiCaprio em uma de suas melhores atuações da carreira por J. Edgar? Ao menos foram lembrados Nick Nolte (ator coadjuvante) por Guerreiro e Gary Oldman (ator) por O Espião Que Sabia Demais. Este, aliás, pela primeira vez indicado. Sim, você vive num mundo onde Sandra Bullock e Halle Berry já ganharam um Oscar, enquanto Gary Oldman nunca tinha sido ao menos indicado!

Kirsten Dunst - Melancolia

No quadro das mulheres, uma das que mais sofreu foi Tilda Swinton por Precisamos Falar Sobre o Kevin. Num filme contraditório, a personagem está fabulosa, mas não ganhou atenção da Academia. A mesma coisa vale para Kirsten Dunst por Melancolia. Sua atuação foi, de longe, a melhor feita por uma mulher no cinema em 2011. Ao menos, Rooney Mara (atriz) está indicada por Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, uma surpresa agradável e Melissa McCarthy (atriz coadjuvante) pelo hilário Missão Madrinha de Casamento.

Michael Fassbender - Shame

É possível discorrer por horas sobre as injustiças, mas vamos parar por aqui. Nem adianta dizer a falta de vergonha na cara de não indicar As Aventuras de Tintim à melhor animação só porque é feito a partir de captura de movimento e, para os velhacos, isso não é animação de verdade. De qualquer forma, o que vemos aqui é um ano onde, mais do que nunca, o Oscar deixa a ousadia totalmente de lado para dar atenção aos filmes edificantes, bonzinhos, sem um pingo de maldade ou violência. É compreensível dar valor a filmes que homenageiam o passado do cinema (caso de O Artista e A Invenção de Hugo Cabret), mas não há como ignorar o modo arcaico com que a Academia tem tratado sua premiação. O Oscar, infelizmente, perdeu totalmente o seu brilho dourado e certamente não é Billy Crystal que o trará de volta.

Tilda Swinton - Precisamos Falar Sobre o Kevin

O Oscar 2012 acontece neste domingo, a partir das 22h com transmissão ao vivo do canal pago TNT e depois do Big Brother Brasil na Rede Globo. Confira abaixo, os chutes nas categorias principais.

O Artista

Bolão do Oscar
Melhor Filme – O Artista
Melhor Diretor – Michel Hazanavicius por O Artista
Melhor Roteiro Adaptado – Os Descendentes
Melhor Roteiro Original – Meia-Noite em Paris
Melhor Ator – Jean Dujardin por O Artista
Melhor Atriz – Meryl Streep por A Dama de Ferro
Melhor Ator Coadjuvante – Christopher Plummer por Toda Forma de Amor
Melhor Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer por Histórias Cruzadas
Melhor Filme Estrangeiro – A Separação
Melhor Filme Animado – Rango

A Dama de Ferro

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