O Artista | Review

The Artist
França / Bélgica, 2011 – 100 min
Comédia / Drama / Romance

Direção:
Michel Hazanavicius
Roteiro:
Michel Hazanavicius
Elenco:
Jean Dujardin, Bérenice Bejo, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Malcom McDowell, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lautner, Joel Murray, Ken Davitian, John Goodman

Prêmios:
Festival de Cannes – melhor ator (Jean Dujardin)
Globo de Ouro de melhor filme comédia ou musical, melhor ator comédia ou musical (Jean Dujardin) e melhor trilha sonora
Producers Guild Award de melhor produção de longa-metragem do ano
Directors Guild Award de melhor direção em um longa-metragem (Michel Hazanavicius)
Screen Actors Guild Award de melhor ator em longa-metragem (Jean Dujardin)

 

Os indicados ao Oscar de 2012 causaram uma revolta maior do que nos outros anos. A Academia, mais uma vez, se mostrou arcaica e sem um pingo de ousadia. Em breve comentarei com mais propriedade sobre os indicados, enquanto isso, vamos falar deste indicado. Com 10 nomeações, O Artista é, disparado, o favorito da premiação. Isso porque em menos de dois meses ele ganhou todos os prêmios de melhor filme dos quais disputou. O engraçado é que pouquíssima gente o assistira e, ainda assim, todos diziam que este era o melhor de 2011. Será?

Sem distribuição certa no Brasil até semana passada (o filme entra em cartaz por aqui nesta sexta-feira, dia 10 de fevereiro, mas provavelmente num circuito bem restrito), O Artista é um longa-metragem que ganhou admiração do público e também a atenção, pois eis aqui uma película toda em preto e branco e muda. Quem diria que em pleno ano 2012 veríamos isso na tela dos cinemas? A adoração deste longa, assim como a de A Invenção de Hugo Cabaret (dirigido por Martin Scorsese), o maior indicado ao Oscar deste ano, só reforça a idéia de que Hollywood está em crise, pois encontrou as mais belas obras de arte em trabalhos onde o foco é o passado, o cinema de antigamente.

Sofrendo com a falta de criatividade, apostando com frequência em arrasa quarteirões cada vez mais descerebrados (salvo um ou outro), Hollywood gosta também de viver criando obras baseados em qualquer livro que venda, além de fazer remakes de filmes de sua própria origem quanto de fora do seu país. Não que isso seja um pecado, mas é apenas uma amostra da carência em criação. De qualquer maneira, 2011 foi um ano lamentável na história do cinema, onde até mesmo a Pixar errou feio. Entretanto, há algumas obras dignas de congratulações e que, no meio desse emaranhado de más idéias e boas idéias mal executadas, conseguem oferecer algo revigorante.

O Artista é uma prova da magia que o cinema é capaz de proporcionar. Dirigido pelo francês pouco conhecido Michel Hazanavicius, o longa-metragem utiliza recursos incomuns. Ambientado entre 1927 e 1932, acompanhamos as trajetórias de dois atores em direções totalmente opostas. Primeiramente, temos George Valentin (Jean Dujardin), um galã com cara de Clark Gable em …E O Vento Levou, que é o maior astro do cinema mudo. Em outra vertente, temos a Peppy Miller (Bérenice Bejo), uma admiradora do rapaz e que sonha em um dia poder estrelar filmes. Conforme o tempo vai passando, os dois acabam se esbarrando pelo caminho, acidentalmente. Então Valentin ajuda Peppy em seu início de carreira, que vai decolando aos poucos em diversos papéis.

As direções opostas continuam. Enquanto um está no topo, o outro está em declínio. O cinema mudo está prestes a falecer por completo e Valentin, no entanto, acredita que isso não é real e filmes falados são besteiras. O orgulho por sua arte acaba o deixando para trás, enquanto Peggy está em ascensão, sendo a cara (e a voz) do novo cinema.

Essa história tem um pouquinho de Dançando na Chuva. A premissa do colapso do cinema mudo e a mudança para o falado já foi abordado, assim como a decadência de alguns artistas que não conseguiram se adaptar a nova era. As semelhanças, no entanto, terminam aí. O Artista não tem números musicais, não há comédia (há humor, mas é muito sutil), todavia, há uma paixão estampada em toda parte pelo cinema. Apesar de vivermos num mundo onde o cinema mudo soa completamente inviável, O Artista funciona por ser uma pérola perdida no meio da imensidão do mar hollywoodiano. Mesmo que utilize desta linguagem ultrapassada, aqui ela serve como um sopro de originalidade.

A trama pode lhe parecer um tanto boboca, até mesmo óbvia, mas O Artista tem diversas coisas que fazem disso uma viagem cinematográfica válida. Uma das coisas que mais aprecio nesta película é a inocência presente nela. A forma de filmar, os olhares, as risadas, as brincadeiras, as danças, as expressões. Tudo tem um ar doce, assim como no romance inevitável entre os protagonistas que, em momento algum, chega a ser clichê. Muito pelo contrário. A relação entre eles é ingênua e não é necessário um beijo para mostrar a intensidade daquele afeto. Neste aspecto, muito me lembra o inesquecível Luzes da Cidade.

Para transmitir essa inocência, contamos com um elenco que esbanja talento e convencem como atores daquela época. Jean Dujardin e Bérenice Bejo possuem química e carisma. Conseguir atuar em um filme mudo não é tão fácil assim, mas eles acham o ponto certo para manter as coisas em equilíbrio em tela, seja com a relação dele com seu cachorro ou com o sorriso encantador dela. Para deixar a película ainda mais agradável, só mesmo a trilha sonora, que é o ponto máximo desde longa. Como não há som, é preciso preencher o silêncio de alguma maneira. Ludovic Bource constrói uma trilha sonora belíssima, captando o espírito (ou melhor ainda, o criando) que o diretor precisa para fazer de O Artista um ótimo filme. Se não fosse por uma trilha tão criativa, a película cairia por terra. Felizmente, o som que embala esta sessão é tão delicioso quanto esta época.

Aproveitar-me-ei de algo que muitos têm falado. O Artista é, de fato, uma carta de amor para Hollywood e uma belíssima homenagem ao cinema. É fantástico? Não é. Pode não ser perfeito ou inesquecível, mas certamente é encantador. O que podemos dizer é que no meio de tantos filmes pretensiosos e com qualidade duvidosa, O Artista se destaca por voltar ao básico, dar um beijo no passado e, o mais importante, ter coração, o que é cada vez mais raro. É um retrato de saudosismo, nostalgia por algo que não vivemos, mas gostaríamos.

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