Histórias Cruzadas | Review

The Help
EUA, 2011 – 146 min
Drama

Direção:
Tate Taylor
Roteiro:
Tate Taylor
Elenco:
Jessica Chastain, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Allison Janney, Octavia Spencer, Emma Stone, Ahna O’Reilly, Sissy Spacek

Prêmios:
Globo de Ouro de melhor Atriz (drama) – Viola Davis, melhor atriz coadjuvante – Octavia Spencer
SAG Awards de melhor elenco, melhor atriz – Viola Davis, melhor atriz coadjuvante – Octavia Spencer

 

E foi dada a largada para a corrida do Oscar! Agora que o Globo de Ouro já premiou quem achava que merecia e a lista com os indicados ao Academy Awards cada vez mais perto (dia 24), os filmes que devem concorrer às estatuetas douradas começam a chegar aos cinemas brasileiros. Histórias Cruzadas é um dos que provavelmente devem estar na lista de melhores do ano. O longa-metragem que estreou nos Estados Unidos em agosto, chega finalmente no Brasil no dia 3 de fevereiro. E o que se deve esperar de Histórias Cruzadas?

Como de costume, a Academia curte um filme edificante, com temáticas onde o preconceito é foco. Lembram de A Cor Púrpura? Então, ganhou diversas indicações. Todo santo ano há alguns filmes em que a superação acontece e, mesmo estando em 2012, a pieguice não poderia ficar de fora.

Histórias Cruzadas é ambientado no início dos anos de 1960 na cidade de Jackson, estado do Mississipi, nos Estados Unidos. A primeira das protagonistas é Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone), uma jovem garota branca que já passou dos 20 anos e ainda não arranjou marido, o que começa a incomodar sua mãe, Charlotte (Allison Janney). Não se importando muito com o que dizem sobre ela, Skeeter é jornalista e está prestes a mexer num assunto um tanto delicado para a época. O país ainda é tomado pelo preconceito e as pessoas negras sofrem bastante com isso. A situação é retratada a partir das empregadas domésticas que precisam engolir muitas coisas em seco para manter seus trabalhos e conseguir dar alguma coisa para seus filhos. Isso é o caso de Aibileen Clark (Viola Davis), que passou sua vida dedicada a criar os filhos dos outros, em muitos casos, porque as mães negligenciam suas crias e muitas vezes não estão preparado para a parte mais difícil da criação: educar.

Incomodada com a situação que vê na casa de suas amigas fúteis, como é o caso da superficial e racista Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), Skeeter resolve escrever um livro contanto o lado das empregadas. A trama se desenvolve nas situações corriqueiras de Aibileen e sua melhor amiga, a esquentada Minny Jackson (Octavia Spencer), despedida diversas vezes, a última delas da casa de Hilly pois utilizou o vaso sanitário de casa e não o que fica na rua, construído exclusivamente para ela, causando a fúria da socialite.

O filme se desenrola na temática do preconceito em diversas escalas. O mais evidente é com os negros, mas também temos a distinção no próprio meio das pessoas brancas, como é o caso de Celia Foote (Jessica Chastain), excluída do grupo social por causa de Hilly. Há também uma pequena abordagem sobre o homossexualismo, já que Skeeter não é o tipo de garota que se arruma pra qualquer coisa e nunca teve um namorado, então sua mãe suspeita que ela goste de outras mulheres. Ouvimos o absurdo de que isso é uma doença, mas que pode ser resolvido tomando um chá. Nada como a ignorância do povo, e isso não faz pouco tempo. 50 anos não é nada num nível histórico. Ainda assim, hoje também presenciamos (vemos, escutamos) situações tão absurdas quanto as expostas aqui.

Histórias Cruzadas tem seus atrativos. Para quem gosta de história, é um capítulo interessante do passado dos Estados Unidos. Para quem curte moda, o figurino não deixa a desejar. Mas o melhor não é nenhuma destas duas opções. O que é transborda competência aqui são as atuações de alto nível. Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Emma Stone. Estas cinco mulheres brigam em cena pra ver quem está melhor. Uma disputa amigável, é claro. Howard está perfeitamente irritante; Stone não deixa de lado o seu jeito adorável e consegue conciliar isso numa temática mais dramática; Chastain está impecável (muito melhor do que em A Árvore da Vida); enquanto isso, Davis e Spencer se complementam, esta encontrando-se ainda melhor e mais afiada.

O longa-metragem de Tate Taylor ganha força porque trata sobre um assunto que gera discussão e conta com um elenco que está inspiradíssimo. Histórias Cruzadas é bom porque seu elenco o faz ser melhor do que realmente é. Digo isso porque as quase duas horas e meia de duração são desnecessárias. Há alguns problemas na narrativa; o ritmo poderia ser um pouco menos sonolento; além de tratar o próprio tema com certa leviandade. A direção de Taylor não é das mais corretas, uma vez que ele consegue pintar um dos retratos mais repugnantes da história estadunidense como algo doce, leve e descontraído. Apesar de ter alguns momentos de pura ignorância, como a cena referente ao banheiro, além de uma acusação de roubo e algumas de demissão, a impressão que fica é a de que era puro exagero e que o preconceito nem era tão alarmante assim. A direção faz com que a situação seja amenizada com piadinhas, romances e uma dose de boa vontade de – olha só! – uma branca salvando as negras.

A intenção do longa pode até ser boa, mas é perigosa. O preconceito já foi abordado em diversos outros filmes, como o próprio A Cor Púrpura, citado no início do texto, assim como Mississipi em Chamas, entre tantos outros. Nestes dois, não há leveza. É o retrato da crueldade, feito para chocar. Enquanto isso, Histórias Cruzadas prefere ficar na sutileza, pintando a época como algo até charmoso. Não uma verdadeira destruição, mas apenas uma pequena rachadura na parede que pode ser facilmente consertada. Neste caso, o filme é ingênuo demais. Proposital ou não, isso influencia e tira um pouco de credibilidade desta obra. Mostrar esta época que muitos gostariam de apagar da história americana sem arriscar, é atirar contra o próprio pé e prestar um desserviço, tanto para o público quanto para o cinema em si. De certa forma, o longa se preocupa mais em retratar a vida das socialites brancas e seus problemas, do que as dificuldades de ser negro.

Por fim, Histórias Cruzadas é um bom filme. Ele pode facilmente te enganar em suas intenções, mas acaba sendo agradável. Encare-o como um filminho para ver com a família que dará tudo certo, porque se for parar para pensar, este longa pode causar algumas dores de cabeça. Tem seus erros, mas também tem seus acertos, com trilha sonora e ambientação caprichadas, além de atuações que ficam entre acima da média e soberbas e praticamente salva o que seria só mais um filme de superação piegas e com alguns desvios de valores.

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