As Aventuras de Tintim | Review

The Adventures of Tintin
EUA / Nova Zelândia, 2011 – 107 min
Aventura / Animação

Direção:
Steven Spielberg
Roteiro:
Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish
Elenco:
Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Toby Jones

Prêmios:
Globo de Ouro de Melhor Animação

Quem não sente saudade dos tempos de matinê? Posso dizer que não nasci nos anos 80, mas sei que as películas daquela época, e também as dos anos 90, tiveram grande significado para muita gente. As aventuras sem malícia, deliciosas de acompanhar, com histórias capazes de prender a atenção dos jovens (e também adultos), entreter e até mesmo emocionar. Bons tempos. Sei que eu soo meio saudosista demais, mas dá saudade destas aventuras. Nestas duas décadas em questão, quem se deu bem foi Steven Spielberg. Ele criou jóias do nosso cinema como E.T., Jurassic Park e Indiana Jones, além de produzir outras produções como De Volta Para o Futuro e Os Goonies. Ninguém entende melhor o espírito da jovialidade e este gênero do que Spielberg. Tanto que, muitas vezes, ele é mais lembrado por elas do que suas obras mais sérias, como (o nem tão bom) O Resgate do Soldado Ryan e (o ótimo, mas chato) A Lista de Schindler.


O aventuresco Spielberg estava desaparecido. Com exceção do último Indiana Jones em 2008, ele não se lançava neste mundo desde o segundo Jurassic Park, lançado em 1997. Em As Aventuras de Tintim, o premiado diretor tem a chance de se redimir de obras como o fraco O Terminal e o exagerado Cavalo de Guerra. E ele se aproveita muito bem dessa chance, onde ele entrega um trabalho bem feito, visualmente espetacular e que entretém qualquer pessoa com espírito de aventura.

A animação feita a partir de captura de movimento já foi explorada em O Expresso Polar, A Lenda de Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge, no entanto, tais produções deixavam ainda a desejar, especialmente por conta do roteiro. Aqui, com produção de Peter Jackson (o que ajuda, com certeza), Spielberg consegue ultrapassar a barreira do costumeiro para criar uma película belíssima visualmente e com efeitos quase inacreditáveis. As personagens criadas por Hergé ficaram iguaizinhos aos do desenho original, mas é claro, com um pé no realismo. O diretor consegue prestar homenagem às histórias de Tintim logo no começo. A abertura lembra o estilo dos créditos iniciais de Um Corpo Que Cai, assim como da série Mad Men. Já ali, o clima de mistério inicia com a pontual trilha sonora de John Williams, aqui, inspiradíssimo e ajudando a construir o tom do filme.

Não vemos aqui uma história de origem. Tintim (Jamie Bell) é um jornalista investigativo famoso que resolvera diversos casos. Ele está passeando com o seu fiel companheiro, o cachorro Milu, e encontra uma réplica de um navio. Por achá-lo tão fascinante, acaba o comprando. Em seguida, um homem tenta lhe comprar, mas ele recusa a vendê-lo. O homem diz que ele corre perigo. Logo depois, um senhor de óculos e bengala, conhecido como Rackham (Daniel Craig) também tenta barganhar o navio. Sem êxito, ele parte e Tintim vai para sua casa, curioso com o caso. O que há de tão especial em uma mera réplica de navio?

Não demora muito para ele ter sua casa revistada e o navio roubado. Aos poucos, Tintim vai descobrindo todos os mistérios por trás disso e começa uma caçada pelo segredo do Licorne, navio afundado em algum lugar do oceano e que possui um grande tesouro. Nesta caçada, quem está ao lado de Tintim e Milu é o descendente do dono da tal embarcação, o capitão Haddock (Andy Serkis), beberrão de primeira e atrapalhado como ninguém, mas somente ele é capaz de conseguir entender a localização do tesouro.

A película é muito bem conduzida por Spielberg. Tudo o que ele sabia do gênero e há muito estava guardado na gaveta, aqui é revisto. Se você sentiu aquela adrenalina boa dos tempos de Indiana Jones, você sentirá novamente aqui. O espectador acompanha pista por pista e vai tentando desvendar o mistério juntamente com o protagonista. Se para os adultos isso pode não ser mais tão atraente (a trama não é lá tão engenhosa), para os mais novos isso é motivo para prestar muita atenção e se prender à exibição.

As figuras criadas por Hergé continuam com a mesma personalidade do desenho. Pra quem é fã, é um prato cheio. Há as trapalhadas dos inspetores Thomson e Thompson (Nick Frost e Simon Pegg), as fofuras do cachorro Milu, as gafes de Haddock (um pouco mais fissurado pela bebida por aqui) e a curiosidade assídua de Tintim. Se não for fã, como é o meu caso, também é possível se entreter.

Umas das delícias deste filme é assistir a um trabalho onde não há malícia. Sou apreciador do sarcasmo, mas às vezes é bom termos uma alternativa que seja desprovida de qualquer maldade. Pode-se dizer que As Aventuras de Tintim é uma aventura inocente. Há quanto tempo não se via isso sem que o trabalho soasse totalmente clichê e desgastado? Somente nas animações da Pixar, creio.

A tecnologia do filme também é um dos destaques. A animação através da captura de movimento dá não apenas um, mas dois passos pra frente. No trailer, parecia meio esquisito o estilo adotado, mas é bem melhor do que se imaginava. Os movimentos não parecem computadorizados e, muitas vezes, as personagens parecem pessoas de verdade. Além disso, as paisagens construídas no fundo azul são embasbacantes, especialmente a construção de Marrocos. Aproveitando a citação do país, vale ressaltar que as cenas de ação são ótimas. A perseguição pelas ruas do país marroquino é espetacular, brigando pau a pau com a fuga da pedra rolante em Os Caçadores da Arca Perdida.

As Aventuras de Tintim não é tão rico em seu roteiro, mas não é dispensável. Pelo contrário. É uma aventura deliciosa, um entretenimento com qualidade. Como é bom ver Spielberg acertando novamente, se reencontrando com a moral de outrora. Depois de Cavalo de Guerra, confesso que quase perdi as esperanças de que ele poderia voltar a fazer cinema de verdade, mas As Aventuras de Tintim tem algo que remete à infância e as boas aventuras, desprovidas de malícia, dos anos 80 e 90. Pode não ser um filmaço, mas vale muito a pena o ingresso. Faça isso pela sua juventude, esteja você a vivendo no momento ou não. Num mundo perfeito, esta película do diretor seria indicada ao Oscar de melhor filme, e não aquele amaranhado de clichês com um cavalo de protagonista.

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