Cavalo de Guerra | Review

War Horse
EUA, 2011 – 146 min
Drama

Direção:
Steven Spielberg
Roteiro:
Lee Hall, Richard Curtis
Elenco:
Emily Watson, David Thewlis, Petter Mullan, Niels Arestrup, Jeremy Irvine, Tom Hiddleston, Celine Buckens

Steven Spielberg, o dono de aventuras deliciosas e que marcaram a juventude de muita gente (incluindo a minha), estava no banco de reservas. Desde Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, em 2008, que ele não lançava um filme. Ficou bastante tempo como produtor de vários blockbusters, como o ótimo Super 8 e os fraquíssimos Transformers e Cowboys & Aliens. 2011, no entanto, foi um ano em que o diretor de Tubarão retorna com tudo. Apesar de As Aventuras de Tintim e Cavalo de Guerra serem lançados apenas em 2012 no Brasil, eles estrearam nos Estados Unidos, entre outros países, ainda no ano que passou.

Enquanto As Aventuras de Tintim ainda não aterrizou em terras brasileiras, Cavalo de Guerra o fez no último dia 6, abrindo a temporada de filmes que devem estar entre os indicados ao Oscar em diversas categorias. Cavalo de Guerra, a partir do trailer, se mostra uma daquelas jornadas inesquecíveis que o próprio Spielberg já mostrou que consegue fazer. Será que, na prática, o longa-metragem consegue ser tão empolgante e emocionante quanto o vídeo que o divulgava?

Uma das coisas que não me agrada, logo de cara, é ter um cavalo como protagonista. Não me entenda mal. Eu acho Baby – O Porquinho Atrapalhado e Ratatouille filmes muito agradáveis. Ok, deixando a brincadeirinha de lado, o fato de acompanharmos um animal durante duas horas e vinte minutos (sim, Spielberg nos preza com tamanha metragem) é um tanto desgastante. Apesar disso, os cavalos aqui atuam bem. Soa estranho dizer isso, mas o diretor realmente preferiu utilizar animais de verdade para o longa-metragem e o equino protagonista (interpretado por vários potros) consegue fazer com que o público assista sem reclamar de dores nas costas por tanto tempo na cadeira.

A história se passa lá no final dos anos de 1910, quando a Primeira Guerra Mundial está prestes a estourar. No meio disso, há o nascimento de um potro que o menino Albie (Jeremy Irvine) presencia. Ele vai para venda e seu pai (Peter Mullan) acaba o comprando, pois vê nele um animal forte e fora do comum. Com a compra, o patriarca gasta o dinheiro que deveria ser para pagar o aluguel da casa e terreno onde moram. Para salvá-los, o cavalo precisa aprender a arar o grande pedaço de terra para que a família possa cultivar nabos e ganhar dinheiro com isso.

Os minutos iniciais de Cavalo de Guerra são o ápice do clichê que o próprio Spielberg cultivou ao longo dos anos. A trilha sonora está presente o tempo todo e as notas altas forçam criar uma sensação de magia e superação. Os closes nos rostos tentam dar um tom de imponência dos personagens a fim de buscar os resquícios de emoção que estão retratados ali. No entanto, o que vemos são poses, como se eles acreditassem que são super-heróis. Parece que os atores receberam a indicação do diretor da seguinte maneira. “Quando eu chegar perto da câmera, fique com o rosto parado e faça uma expressão de quem está vendo o sonho sendo realizado lá no horizonte”.

O ritmo é acelerado neste início e a amizade entre Albie e o cavalo, batizado de Joey, é uma relação bonita e Spielberg sabe como explorar isso. Não que explorar seja algo positivo, pois neste caso não é. A dramatização é excessiva. O garoto Jeremy Irvine entrega uma atuação digna da série Hannah Montana, enquanto o melhor em cena é o próprio potro que, acredite ou não, consegue expressar com precisão o sofrimento que sente, especialmente no segundo ato da película.

Logo a Guerra chega e Joey é vendido e parte para o campo de batalha. Ele passa por diversos caminhos, vivencia diversos momentos e passa por situações de horror e também de carinho. Entre uma garotinha e seu avô, outro cavalo e vários soldados, Joey acaba conhecendo os horrores de uma guerra sem propósito. Presenciamos também o impulso da tecnologia. O romantismo das batalhas em cima de cavalos são destruídas em uma das cenas do filme, onde o exército inglês acredita que conseguirá vencer o inimigo com seus cavalos e espadas, mas são aniquilados de forma bruta por armas de fogo, como canhões, por exemplo. O filme mostra essa mudança no mundo, tanto no exemplo citado quanto nas pessoas. A frieza do ser humano também é mostrada aqui, mas ainda há esperança de que a bondade do ser humano seja maior do que isso, como não poderia deixar de ser para Steven Spielberg, ainda mais em um filme da Disney.

Spielber, na verdade, tinha a chance de fazer um grande filme, pois tem bons temas em sua mão. O problema é que o diretor parte para aquele sentimentalismo barato e perece em dramaticidade de qualidade. As batalhas, por exemplo, lembram o clima de O Resgate do Soldado Ryan, no entanto, para por aí as semelhanças. Nestes embates, o diretor não pesa a mão e deixa os combates só com explosões e sem uma gota de sangue. Ou seja, o retrato de uma das mais importantes e sangrentas guerras de todos os tempos é marcada apenas por gente correndo e tiros sem acertos. Mesmo para um Spielberg da Sessão da Tarde esperava-se mais do que isso.

Há uma tentativa deste longa-metragem parecer daqueles épicos gigantescos, como …E O Vento Levou, por exemplo. A fotografia, especialmente no ato final, é de uma beleza cinematográfica estonteante. Contudo, tudo isso não consegue superar a tentativa de Spielberg de nos fazer chorar a todo momento. As cenas edificantes, com lições de moral, superação, pieguice e um pouco de sofrimento. Um prato cheio para os votantes caretas da Academia e um desperdício de tempo do público.

O longa é melodramático do começo ao fim, com situações inverossímeis e recheado com clichês. Esta obra tenta arrancar lágrimas na marra e, quem sabe, até consiga. É uma história é bacana, convenhamos. O cavalo é boa praça e o vovô interpretado por Niels Arestrup (da excelente película francesa O Profeta) tem a única atuação – humana – de destaque e, em pouco tempo em cena, emociona. Mas é só isso. Cavalo de Guerra é bonitinho, mas ordinário.

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