A Pele Que Habito | Review

La Piel Que Habito
Espanha, 2011 – 117 min
Suspense / Drama

Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro:
Pedro Almodóvar, Agustín Almodóvar
Elenco:
Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo

Pedro Almodóvar é um dos diretores europeus mais respeitados e criativos atualmente e possui fãs por todo o globo. No entanto, já faz certo tempo que ele não arrisca de verdade. Veja bem, eu gosto bastante de seus filmes anteriores, Abraços Partidos e Volver, ambos estrelados por Penélope Cruz, em duas das suas três melhores atuações de toda carreira (a outra é em Vicky Cristina Barcelona). No entanto, ele não ousava como costumava fazer em outros tempos. Certa acomodação pode ocorrer ao longo da carreira. Steven Spielberg é um exemplo disso. Em A Pele Que Habito, contudo, Almodóvar retorna incrivelmente pirado e surta num conto de suspense e muitas surpresas.


Não pesquisei muito sobre o filme antes de assistí-lo, pois não queria acabar com as surpesas. De qualquer forma, Almodóvar entregou muito pouco na divulgação da película. O que sabíamos era que Robert (Antonio Banderas) era um cirurgião plástico e havia uma mulher envolvida. Basicamente era isso que se sabia. Pois bem, a trama de A Pele Que Habito é muito mais ampla e sombria do que isso. Aliás, é algo bem doentio, se me permitem dizer.

Robert mantém Vera (Elena Anaya) trancafiada em um quarto de sua casa. O cirurgião é um dos poucos que realizou uma operação de mudança de rosto no mundo inteiro. Nesta sua especialização plástica, ele está desenvolvendo um tipo de pele mais resistente, que poderia impedir até mesmo a picada de um mosquito da malária. O problema é que na composição, é utilizado sangue de animais vivos e isso vai totalmente contra a bioética. Entretanto, isso não é o suficiente para impedir Robert de ir além nesta sua jornada.

Para conseguir testar seu experimento, ele precisa de uma cobaia humana, que vem a ser Vera. Inicialmente, Vera é apenas uma mulher qualquer. Nos primeiros minutos de metragem, é possível ver que a personagem é um tanto perturbada. Ela logo tenta se matar, mas não consegue. Por que ela foi a escolhida como cobaia? Por que é mantida presa? Quais os segedos por trás desta pele que ela habita? Estas são respostas que não me cabem contar, pois estragaria muita coisa sobre o filme.

Almodóvar conduz este longa-metragem com a coragem que lhe faltava nos últimos anos. Do início até os minutos finais, A Pele Que Habito deixa o espectador aflito, inquieto e perturbado. Os personagens parecem ser uma coisa e descobrimos que há máscaras encobrindo a verdade naqueles rostos. Tomemos a personagem feminina da trama. Aliás, Almodóvar sempre dá um jeito de crucificar de alguma forma a figura da mulher e tomá-la como heroína. Vera parece ser inocente, triste e até mesmo adorável.  Então voltamos no tempo seis anos atrás. Lá, descobrimos os motivos que levam Robert a fazer o que faz (a certo modo, justificável, mas depois torna-se algo doentio) e o que Vera fez para transformar-se nisso que ela é agora. O diretor faz questão de ressaltar este flashback e, depois, a volta ao presente. Nem precisava, mas não é pretensão dele confundir o espectador em um filme onde o foco está longe de ser este.

Não espere por um suspense de dar realmente sustos. Esta não é a proposta de Almodóvar. O que ele cria aqui é um resgate daquele espírito do verdadeiro suspense. Aquele onde você não precisa de sustos, mas cria situações de aflição, deixando o espectador tão perturbado quanto a trama. Quem gostava de fazer isso era Hitchcock. Assim como este, o diretor espanhol mostra que há espaço para este nicho dentro do gênero. A Pele Que Habito é cheio de surpresas e, a cada revelação, o espectador fica ainda mais abismado e até mesmo nauseado.

Vale ressaltar também o elenco. A última parceria entre Banderas e o diretor foi em Ata-Me, no ano de 1990. Antonio Banderas é um ator boa praça, mas suas melhores performances na carreira foram sob a batuta do espanhol e nesta película, o protagonista entrega uma atuação pontual e desconcertante. Elena Anaya não é lá muito conhecida do grande público (ao menos não me recordo de nenhum papel relevante dela), mas ela nos oferece mistério, agonia, entre outras sensações, de forma competente.

Mais uma vez Almodóvar prova porque merece respeito e continua a manter o status de diretor intrigante, que transita entre gêneros e cria obras originais que somente sua mente seria capaz de criar.

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