Um Dia | Review

One Day
EUA / Inglaterra, 2011 – 107 min
Romance

Direção:
Lone Scherfig
Roteiro:
David Nicholls
Elenco:
Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Ken Stott, Romola Garai, Rafe Spall

Na adaptação para as telas do romance de David Nicholls, a história se mantém. Na mesma forma que ocorre na obra literária, aqui o enredo se desenrola de maneira semelhante. Emma e Dexter estão se formando na universidade e passam esta noite juntos. Após àquela noite, eles criam uma relação de amizade que vai sendo mostrada a cada ano que se passa, estando eles juntos ou não, no mesmo dia, 15 de julho, ao longo de 20 anos. Os intérpretes de Emma e Dexter são Anne Hathaway e Jim Sturgess, respectivamente. Nunca é uma missão fácil pegar dois atores que consigam convencer tanto como universitários e depois adultos com suas vidas consolidadas, vinte anos depois. Interpretar fases tão distintas da vida pode ser complicado. Gostaria de dizer que a dupla consegue ter sucesso nesta empreitada, mas eu estaria mentindo para você, caro leitor.

O primeiro erro é escalar Anne Hathaway, uma americana, para o papel de uma inglesa. Na realidade, este nem seria um problema. Afinal, Hugh Laurie é britânico, possui um forte sotaque e o esconde perfeitamente na série House, fazendo com que o público acredite que ele nasceu nos Estados Unidos. Enquanto isso, Hathaway tenta fazer o sotaque britânico que sua personagem teoricamente possui. E o problema é este. Hathaway nunca esteve tão insossa, tão inexpressiva e desinteressante quanto neste papel. A sua tentativa de imitar uma inglesa acaba destruindo todos os momentos em que está em tela. Parece que a atriz está o tempo todo se preocupando com o sotaque e, ao invés de se focar numa atuação consistente, ela se perde completamente. Como se esta tentativa de soar britânica já não fosse frustrante o suficiente, em muitos momentos ela simplesmente esquece de faze-lo, o que piora a situação. Ela não consegue escolher o que fazer e, no fim, acaba fazendo coisa alguma. Ao menos, nada que salve sua personagem.


Surpreendentemente, quem se sai bem na tela é Jim Sturgess. Não sou grande fã do rapaz, mas ele se esforça neste papel. Ele interpreta um cara mulherengo, canastrão e irresponsável, um tipo que é muito explorado no cinema, mas Sturgess consegue faze-lo de forma convincente e não cai no exagero. Uma atuação bem dosada, no geral. No entanto, apesar de sua presença isoladamente criar alguma coisa interessante, com o seu pesado sotaque britânico, o que não existe na tela é química entre ele e Hathaway. Exceto no final (e olhe lá) da película, não há momento algum em que você acredite de verdade que existe um amor intenso entre eles. Não é só culpa da direção. Existem atores que não casam e este é um desses casos. Não foram todos que nasceram para ser uma dupla abençoada como Tom Cruise com Cameron Diaz, Joseph Gordon-Levitt com Zooey Deschanel, Meg Ryan com Billy Crystal, entre outros.

Ainda nessa história de romance, não irei comparar Um Dia com comédias românticas como (500) Dias Com Ela e Harry & Sally, pois estes possuem diálogos mais ricos e protagonistas mais interessantes, além de ser um tipo de cinema bem mais atraente. Não trato mal a história de Um Dia, pois ela é, até certo ponto, boa e original. No entanto, é o tipo de obra literária que não tem como funcionar na tela. Reflitam comigo. São 20 anos, ou seja, 20 dias. O livro tem toda uma construção narrativa para descrever a situação dos dois em cada ano. Há um cuidado especial nisso. No entanto, o filme não dá conta de dar ao público todos os detalhes necessários, ao menos, não o suficiente para fazer uma conexão mais intensa com o espectador. Em menos de duas horas de metragem (cerca de uma hora e 40 minutos), o longa se discorre neste vinte anos numa rapidez que não é possível saborear os momentos que, teoricamente, são marcantes na vida de ambos. Por passar anos em menos de 5 minutos, a película acaba sofrendo com falta de profundidade. Não há tempo para que o enredo evolua, crie consistência e envolva o espectador.  É tudo muito rápido, muito vago, quase vazio. Um Dia se mantém no mesmo nível o tempo todo. Não há uma parte que se destaque, um momento mais interessante. Nem mesmo um clímax. É um filme plano, sem variações pertinentes.

Outro erro é na hora de envelhecer o elenco. Jim Sturgess fica com cabelo grisalho, dá realmente uma envelhecida. Enquanto isso, Hathaway se mantém igual nestes 20 anos que se passam. E não só ela. O namorado de Emma, Ian (Rafe Spall) também permanece idêntico (ou até melhor, sem o paletó de avô) em mais de uma década em que aparece no longa-metragem. O trabalho de maquiagem é mais um setor que falha na película.

O desfecho tem um quê de “quero ser um filme baseado num livro de Nicholas Sparks”. Talvez o momento mais baixo é justamente quando isso acontece. Um Dia tem uma boa história, mas que simplesmente não serve para a telona, especialmente quando não há química entre o casal da obra (isso é ainda pior quando a trama é toda em torno deles, sem coadjuvantes interessantes) e uma ótima atriz como Anne Hathaway entrega uma de suas piores (se não a pior) atuação de sua carreira. É triste, mas não por causa do conteúdo, mas sim do resultado final.

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